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Manual para animadores da justiça, da paz
e da integridade da criação

PRÓLOGO

estes tempos mais recentes, a caminhada da Igreja e da missão têm sido marcadas, cada vez mais, pela dimensão Justiça-e-Paz. A procura e a defesa destes valores constituem uma dimensão fundamental da história humana, do caminho da salvação de todos os povos, e da sua integração na criação e na família humana universal.

A Igreja, como comunidade de fé que é, deve ser testemunha corajosa da justiça e da paz, que são valores peculiares da sua missão evangelizadora, de forma que a promoção dos mesmos deverá fazer parte do programa pastoral de cada comunidade cristã ( Cfr. Ecclesia in Africa, 106-107). “Juntamente com a mensagem evangélica, a Igreja oferece também uma força libertadora e defensora de desenvolvimento, precisamente porque leva à conversão dos corações e das mentalidades; faz com que se reconheça a dignidade de cada pessoa; predispõe para a solidariedade, para o empenho, para o serviço aos irmãos, e integra o homem no projecto de Deus” (Redemptoris Missio, 59).

Mas como havemos de dar incremento a um novo modo de pensar e de agir que possa ser, ao mesmo tempo, crítico e criador no que toca à realidade individual, social, económica, política e religiosa, que precisa de ser iluminada, interpretada e até, porventura, modificada?

Como havemos de promover transformações capazes de sustentar os direitos dos mais pobres e de realizar a justiça para todos?

Foi precisamente para responder a estes desafios e descobrir as potencialidades deste ministério que a Comissão Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC) da Associação dos Superiores e Irmãs Superioras Gerais (ASG/AISG) decidiu preparar um manual de JPIC em várias línguas.

O objectivo deste manual é dar a possibilidade de reflectir seriamente sobre a ordem mundial, examinando com atenção os problemas da justiça antes de passar à acção concreta.

Portanto, não se trata de um livro de biblioteca: este manual pretende ser um recurso para uso das comunidades cristãs que pretendam renovar-se, um instrumento de trabalho para grupos comprometidos com a transformação das sociedades, um meio de comunicação e de renovação para todos os que acreditam na dignidade e nos direitos de cada pessoa humana.

Vem hoje à luz este manual em língua ……….italiana….para responder aos muitos pedidos de um auditório interessado e aberto a esta nova dimensão que é própria da vida de fé cristã e da evangelização.

O grupo da Rede África/Europa Fé e Justiça (RAEFJ - Antena Itália (Roma) tratou da sua tradução e adaptação à nossa língua e à nossa cultura. Fazemos votos para que se possa tornar um instrumento eficaz no seio das comunidades, dos grupos e das paróquias, para que o ministério da Justiça e da Paz seja um estímulo à renovação da consciência, da vida e do serviço daqueles que têm fé, vivem e trabalham ombro a ombro com os mais pobres deste mundo.

GRUPO REDE FÉ E JUSTIÇA
ÁFRICA/EUROPA - ANTENA ITÁLIA

(…Do original inglês)


INTRODUÇÃO

…para levar a boa nova aos pobres,
para proclamar a libertação aos prisioneiros
e a vista aos cegos,
para libertar os oprimidos…

0.0. INTRODUÇÃO

  • Nos “pueblos jóvenes”, na periferia de Lima, Valentino está a quebrar a dura rocha da encosta da serra para construir uma casa para a sua esposa grávida e para os filhos que já tem. Foi expulso da sua terra, primeiro pelos terroristas, depois pelos militares, acabando por se juntar à onda humana de refugiados. Desempregado e atacado pela tuberculose, mas ainda de espírito invencível, Valentino vai tratando das suas plantas em vasos de lata.
  • Durante a guerra da Bósnia, 80.000 raparigas e mulheres, com idades entre os 8 e os 80 anos, foram violadas.
  • Aninhada na esteira da sua cabana, uma jovem refugiada ruandesa está a morrer de SIDA. E, no entanto, ela é o único sustento das suas duas irmãzitas e do seu filho recém nascido.
  • Mais de metade das florestas tropicais do mundo desapareceu desde 1950 para cá, ao ritmo de mais de 4.000 metros quadrados por segundo. As florestas são o habitat de populações indígenas e de milhões de espécies biológicas. Regulam os climas e impedem tanto as inundações como os desabamentos. É delas que provém mais de metade dos nossos medicamentos.

Para um cristão, ficar calado e passivo perante tragédias, violências e destruições desta magnitude, é o mesmo que negar o Evangelho. Logo no início do seu ministério público, Jesus quis dar a conhecer a missão do cristão:

“O Espírito do Senhor está sobre mim;
pelo que me ungiu e consagrou,
e me mandou para anunciar aos pobres uma mensagem de alegria,
para proclamar a libertação aos prisioneiros
e a vista aos cegos;
para devolver a liberdade aos oprimidos
e pregar um ano de graça do Senhor”.

(Lc 4,18-19)

Jesus também disse:
“Eu vim para que tenham a vida,
e a tenham em abundância”.

(Jo 10,10)

Os seres humanos, e bem assim todo o conjunto da criação divina, estão a ser privados da vida. A paixão pela justiça; o desejo de paz e não-violência; a solicitude pela integridade da criação como um todo (JPIC), são essenciais para se poder viver segundo o Evangelho. Não são uma opção, mas, sim, um estilo de vida. O empenho em favor da justiça e a participação na transformação do mundo são uma dimensão fundamental da pregação do Evangelho e são essenciais para a missão que a Igreja tem de libertar a humanidade de toda e qualquer situação de opressão (Giustizia nel Mondo, 5).

A justiça e a paz não são palavras novas no nosso vocabulário, nem tão pouco são conceitos novos na teologia e na missiologia. Mas assumiram um sentido novo na nossa procura do porquê, o quê e o como da missão e duma nova evangelização no dealbar dum novo milénio. A expressão “integridade da criação” é relativamente nova e continua a adquirir uma importância cada vez maior por causa do estado precário em que se encontra actualmente o nosso planeta.

O compromisso com a JPIC difere da acção social ou do ministério social na medida em que tem a ver com um estilo de vida que envolve todas as actividades próprias do nosso ministério.

Em alguns contextos e entre alguns grupos, por razões várias, sente-se a necessidade de designar o compromisso com a JPIC de outra maneira. De entre as propostas que já foram sugeridas indicamos as seguintes:

  • um chamamento renovado ao apostolado;
  • um programa bíblico renovado;
  • a promoção do Reino de Deus no mundo actual.

Quando se fala de JPIC, argumenta-se sobre a designação de “pobre”, ou seja, se se deva alargar àqueles que se encontram em necessidade do ponto de vista psicológico, espiritual, emotivo, etc. Neste manual, o termo “pobre” refere-se principalmente àqueles que são pobres do ponto de vista material; as outras categorias de pobres também devem ser tratadas com justiça, mas isso é assunto de reflexão e de acção a nível diferente.

0.1. Os vários conceitos de justiça

À pergunta “Por que razão se deveria trabalhar em prol da justiça?” podem dar-se muitas respostas.

As pessoas trabalham pela justiça:

  • pelos seus irmãos e irmãs que sofrem e continuarão a sofrer até que haja justiça;
  • porque sonham com um mundo em que todos serão iguais e verão a sua liberdade tratada com respeito;
  • porque estão convictas de que é do melhor interesse de todos que se faça justiça;
  • porque acreditam em Deus;
  • porque o Evangelho nos manda procurar o reino da justiça;
  • porque são filhos de Deus, criados à sua imagem e semelhança, ensinados pelo Salvador e formados pelo Espírito Santo.

Analisemos, então algumas das maneiras de entender o que é a justiça.

  1. A justiça anda associada à imagem da balança. Tem por definição dar a cada um o que lhe cabe. Neste sentido, ela não é mais que recompensa e castigo.
  2. A justiça tem como referência as necessidades, os direitos e os deveres da pessoa na sociedade. Cada qual tem a responsabilidade de agir para com os outros de tal maneira que lhes garanta aquilo de que têm necessidade para viver, recompensando as boas acções e respeitando os direitos fundamentais.
  3. A justiça refere-se ao ser mais profundo da pessoa e, portanto, o objectivo visado nem é um resultado socialmente desejável, nem a obediência à lei moral, mas sim a pessoa humana. A justiça, aqui, não se identifica com um governo “ideal”, nem com a conformidade com uma lei moral objectiva mas, antes, é aquilo que a pessoa justa realmente pratica; há uma capacidade moral, um primado da justiça em relação às outras virtudes.
  4. A justiça é uma questão de relações justas entre as pessoas, entre as pessoas e a criação, entre as pessoas e Deus. A procura da justiça implica um empenhamento em criar relações construtivas e libertadoras entre todas estas entidades.
  5. Por fim, a justiça pode ser entendida como o modo de ser e de agir de Deus, a ele se podendo reconduzir todos os outros modos de entender a justiça, mas com a adição do elemento gratuidade. Deus é sempre justo, mas a justiça de Deus é algo mais. É o que entrevemos na parábola do Bom Samaritano e na narrativa a respeito de Job. A justiça divina indica-nos o ideal do mais e melhor fazer, e é uma justiça que vai para além da nossa visão limitada daquilo que é correcto e justo. É uma justiça sem limites rígidos, uma justiça feita com generosidade, uma justiça que faz tudo o que é necessário e ainda um pouco mais. Onde abundar esta justiça também abundará a alegria; toda a criação é honrada e salvaguardada; e há paz. É o dom de Deus e, ao mesmo tempo, algo por que se deve lutar.1

0.2. Para que servirá um manual para animadores de JPIC?

Com o decorrer do nosso intercâmbio regular de experiências, reflexões e procura de respostas cada vez mais pertinentes, o grupo de promotores da JPIC, que representava mais de 50 Congregações religiosas internacionais em Roma (veja-se a listagem em Apêndice), sentiu-se a necessidade de elaborar um manual. Além disso, as nossas irmãs e irmãos no terreno pediram-nos um “instrumento” para ajudar aqueles que estão à procura do como da missão no contexto do mundo de hoje.

A proposta dum manual surgiu pela primeira vez há dois anos. No decorrer da sua elaboração fomos vendo, progressivamente, textos, documentos e recursos audiovisuais que estão disponíveis para a formação em JPIC. Este manual deseja ser mais um desses instrumentos e, por isso, não contém absolutamente todas as respostas às perguntas que se fazem hoje sobre as injustiças e sobre a violência que estão a ser impostas à humanidade e ao ambiente.

Os temas mais importantes que aqui se apresentam são:

  1. Ler os sinais dos tempos
  2. Fundamentos bíblicos para a JPIC
  3. A doutrina social da Igreja e a análise social
  4. Refazer a imagem da vida religiosa
  5. Refazer a imagem da missão

Fazemos votos para que este manual possa servir como:

  • um texto útil para os promotores de JPIC;
  • um instrumento para formadores, agentes pastorais e animadores a nível institucional, ou até de base;
  • um “obreiro de confiança” para aqueles que estão a fazer uma procura sincera.

Este manual para promotores de JPIC fornece-lhes as ferramentas práticas que ajudam a ultrapassar aquela sensação de impotência perante a pobreza, a injustiça e a violência; para que sejam testemunhas mais eficazes da Boa Nova, anunciando a libertação e a paz; para que possam entrever novos sonhos e visões na sua procura de caminhos ao serviço da vida.

0.3. Como se fez este manual?

  1. Uma comissão de quatro promotores de JPIC preparou um primeiro rascunho que foi distribuído num dos encontros que se fizeram para recolher comentários e sugestões.
  2. Com base nas sugestões que foram recebidas, a comissão preparou um segundo rascunho que foi entregue a um grupo de três promotores, para efeitos de avaliação crítica, e que foi discutido numa reunião conjunta com a própria comissão.
  3. Uma comissão para a redacção, constituído por membros da primeira comissão mais um membro novo, tomou conta da terceira redacção, que depois foi distribuída a um grupo de quinze promotores de JPIC (representativos de todos os continentes), que a examinaram e aperfeiçoaram tendo em mira uma versão final.
  4. A primeira edição em língua inglesa veio à luz em Junho de 1997.

Nota

  • Na preparação deste manual, procurámos levar em consideração a diversidade dos contextos (político, económico, político, cultural, social e religioso) dos destinatários. Por isso, deverá cada qual sentir-se livre de deixar de lado aquilo que não tiver a ver com o seu contexto particular.
  • As estatísticas que aqui são apresentadas foram tiradas de vários documentos da ONU, relatórios e outras fontes oficiais. Algumas delas talvez já se encontrem desactualizadas quando o manual vos chegar às mãos, devido às rápidas mudanças que se vão verificando. No entanto, foram aqui incluídas a título de apoio àqueles que porventura não tenham a oportunidade de aceder a tais dados.
  • Este manual foi preparado por um grupo inter-congregacional. Todos ficam convidados a enriquecê-lo com o seu próprio carisma, com os documentos dos seus Institutos, e com narrativas/exemplos relatados por membros da vossa Congregação.
  • Como já foi dito, este texto não é um programa completo que trate de todos os problemas de JPIC.
  • Isto não é o tipo de livro que se tenha de ler do princípio ao fim: é um guia de recursos e é um “vademecum” para a vossa caminhada de JPIC.

Trata-se apenas dum instrumento de trabalho que fica a contar com o contributo de cada um de vós. Podeis juntar-lhe o material que achardes útil para o vosso próprio contexto. Se tiverdes outros materiais que acheis terem importância para efeitos de partilha com outras Congregações e grupos religiosos, enviai-o ao coordenador de JPIC do vosso Instituto ou ao responsável pela JPIC do vosso Conselho Geral, pedindo-lhe que o transmita ao grupo dos promotores de JPIC em Roma.

Todo e qualquer comentário ou “feedback” pode contar desde já com os nossos agradecimentos.

Roma, 1997


1 Cfr. MURPHY, S.J., The many ways of Justice: Studies in the Spirituality of Jesuits, “The Month”, 26 (1994), 2.