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Manual para animadores da justiça, da paz
e da integridade da criação

PRIMEIRA PARTE
LER OS SINAIS DOS TEMPOS

1.1. INJUSTIÇAS CONTRA A HUMANIDADE

Eis alguns acontecimentos-chave da nossa história mais recente que já afectaram a história de toda a humanidade:

  • 1945: Os Estados Unidos da América e os seus Aliados vencem a Segunda Guerra Mundial.
  • Os Estados Unidos da América e os seus Aliados criam as instituições de Bretton Woods: o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Acordo Geral sobre o Comércio e Tarifas Internacionais (GATT) com a finalidade de controlar a realidade financeira do mundo do pós-guerra. O dólar Americano irá dominar o horizonte financeiro.
  • Entre os anos 40 e 70 dá-se a independência de vários países da África e da Ásia.
  • A independência política destes países leva, pouco a pouco, a uma maior dependência económica.
  • Em 1989 dá-se a queda do Muro de Berlim e, também, a repressão da Praça Tienanmen na China. Seria o fim da Guerra Fria? Mas quem venceu? Foi o fim da União Soviética? O fim da opção socialista? A partir daqui, o interesse económico centra-se na Europa de Leste e nos “Tigres” da Ásia. Os pobres do mundo são encarados como um problema.
  • Em 1991: a Guerra do Golfo.
  • Os Estados Unidos insinuam-se nas Nações Unidas como a única superpotência mundial. Desenha-se no horizonte um novo conceito de império, não já baseado no estado nacional, mas, antes, no capital, a cujo serviço aparece uma “nova ordem mundial” de natureza político-militar.
  • 1992: “Celebração dos Quinhentos Anos”. De quê? Da presença europeia nas Américas?
  • 1993: abolição do apartheid na África do Sul.

1.1.1 A ordem económica mundial de hoje

A política neoliberal

Com base em comentários recentes, é evidente que o neoliberalismo se afirmou como um esquema ortodoxo de dimensões sem precedentes históricos, em virtude da sua amplitude e da sua força a nível mundial. Na “nova ordem mundial”, existe uma única base sobre a qual se discutem os problemas do mundo: a economia neoclássica. Há um só caminho de “salvação” para todos os povos, sejam quais forem as suas tradições, valores, história ou costumes, sejam eles do Norte ou do Sul - e esse caminho chama-se mercado. A economia é a linguagem humana dominante nestes tempos; e ela determina a vida colectiva do planeta. As empresas transnacionais são hoje as instituições de controlo privilegiadas sobre este planeta. Talvez seja mais correcto dizer que o sistema de controlo dominante é o sistema financeiro, mais que as transnacionais em si. Elas são as responsáveis no que toca ao sistema financeiro “global”, que se transformou, segundo modalidades importantes mas preocupantes, e se descreve, em termos bastante precisos, como um “jogo de azar global”.

Todos os mercados financeiros do mundo estão interligados mediante um único sistema computadorizado. Esta nova “realidade” está a transformar a face da comunidade internacional e está a criar cada vez mais pobreza e destruição do ambiente.

Em toda a parte se ouve o mesmo refrão: o único caminho para o progresso é o “mercado livre” global. Para se poder concorrer nesta nova economia global, sublinha-se que:

  • as empresas devem tornar-se mais eficientes através do redimensionamento e a restruturação da sua mão de obra;
  • os impostos e os regulamentos dos Estados criam obstáculos à iniciativa empresarial;
  • os programas estatais de assistência tendem a criar dependências;
  • o Estado deve , também ele, ser redimensionado; os bens devem ser privatizados; os orçamentos devem ser cortados; e os défices devem ser eliminados;
  • os custos da assistência social e os outros “subsídios” dos trabalhadores pobres são assunto de crítica;
  • os direitos sindicais e outra legislação interferem negativamente na flexibilidade laboral.

Nos países do Sul que se encontram em vias de desenvolvimento, e são agora habitualmente designados por “mundo dos dois terços” 2, esta crítica neoliberal é evidente nos programas de afinação estrutural (Structural Adjustment Programs, SAP) impostos pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) (ver o Apêndice I para ulteriores explicações) como condições para o refinanciamento dos pagamentos da dívida. Em conformidade com os SAP, os governos destes países favorecem as importações e os investimentos estrangeiros e reforçam as exportações. Esta política encontra-se de tal modo difundida entre os centros do poder espalhados por todo o mundo que, até ao fim do milénio, talvez acabe por mudar radicalmente a vida de muito mais pessoas e nações que qualquer outra ideologia da história humana.

Tendo sido imposto por vastos interesses financeiros e políticos, o actual sistema económico mundial cria riqueza para uma minoria e aumenta a pobreza duma maioria, em vez de estar ao serviço dos habitantes da Terra. Embora esta globalização da economia se apresente sob formas diversas consoante o país em que se viva, ela está a influenciar, cada vez mais directamente, a nossa vida quotidiana3:

  • De entre os 5,7 biliões4 de pessoas do mundo, 1,5 biliões são considerados muito pobres.
  • 20% dos mais pobres do mundo recebem 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB), ao passo que os restantes 84,7% vão parar às mãos dos 20% dos mais ricos.
  • Mais de um bilião de seres humanos sobrevive com apenas um dólar por dia; 3 biliões sobrevivem com pouco mais de dois dólares por dia. Ao mesmo tempo, 358 pessoas terão já acumulado um capital pessoal no valor de quase 762 biliões de dólares, o que equivale ao rendimento de 2 biliões e 35 milhões de pobres.
  • Nos tempos actuais, um bilião de pobres do mundo vive em áreas rurais; mas até ao ano 2005, uma pessoa em cada duas viverá nas metrópoles ou nas cidades, causando uma crescente “urbanização da pobreza”.

  • Desemprego e condições precárias de vida: cerca de 30% da população activa mundial, avaliada em cerca de 2 biliões e meio de pessoas, não têm ocupação produtiva.
  • Custo de vida elevado: enquanto se idolatra a economia do mercado mundial, quatro pessoas em cada cinco não têm poder aquisitivo.
  • Fome: um quinto da população mundial padece de fome; três milhões de crianças morrem de desnutrição todos os anos.
  • A maioria dos pobres do mundo é constituída por mulheres. As crianças e outros grupos vulneráveis e desfavorecidos, tais como as populações indígenas, os incapacitados, os idosos, os refugiados, os emigrantes e os desempregados de longa duração, são os mais expostos à pobreza.
  • Violação do direito à educação: a frequência escolar reduziu-se de forma muito particular, especialmente na África.
  • Violação do direito à saúde: a privatização do sector da saúde e os ataques aos sistemas de previdência social estão a causar uma desigualdade intolerável no que toca ao direito à saúde.
  • Falta de habitação e ausência de condições de vida “normais”: um quarto da população mundial não dispõe de água potável; um terço dela vive em extrema pobreza.
  • A agricultura é um sector sacrificado tanto no Norte como no Sul. No Norte, as políticas agrícolas encontram a sua base em critérios como o lucro e a produtividade. Ora isto provoca a falência dos pequenos agricultores e o desemprego dos trabalhadores agrícolas. No Sul, a falta de investimentos na agricultura e a ausência de reforma agrária provocam a emigração das zonas rurais para as cidades e, portanto, a sua desertificação.
  • A degradação do ambiente coloca em perigo a vida das gerações presentes e futuras.

Outros dados do Relatório sobre o Desenvolvimento Humano - 19965:

O desenvolvimento económico transformou-se em falência para um quarto da população do globo: de facto, ele tem contribuído para aumentar o desemprego e o número de pessoas sem direitos, tendo também destruído a cultura dos povos.

Em particular, nota-se que:

  • 89 países estão em pior situação económica em relação à de oito anos atrás;
  • em 70 países em vias de desenvolvimento, os rendimentos são inferiores aos dos anos 60 ou 70;
  • em 19 países, o rendimento per capita está agora abaixo do nível que tinham em 1960.

“Nenhum cristão pode ser defensor tácito dum sistema que marginaliza os pobres. Digo “defensor tácito” porque a falta duma nossa tomada de posição equivale a uma defesa. Hoje em dia, devemos dar-nos conta de que a opção a favor dos pobres também significa, necessariamente, uma opção contra um sistema económico que continua a fazer um crescente número de vítimas. A fé não pode comunicar a vida se não tiver nada para dizer sobre os elementos primordiais que designamos por alimento, água, terra, casa, segurança, etc.”6.

1.1.1.1 Para um modelo novo de desenvolvimento

As seguintes reflexões sobre a economia política foram compiladas por Catherine Mulholland, do Conselho Mundial das Igrejas.

A condição prévia para a mudança de sistema económico está na adopção dum novo sistema de valores. Nos últimos vinte anos, foi-se tornando cada vez mais claro que, em relação a todos os sistemas económicos, sem excepção, é necessário verificar se, e até que ponto, eles colocam as pessoas no centro do processo e as consideram sujeitos e não objectos desse mesmo processo. Entre os valores e os critérios com maior consenso enumeram-se os seguintes:

  • satisfação das necessidades humanas fundamentais;
  • justiça e participação: estas necessidades obtêm satisfação equitativa?
  • sustentabilidade: o sistema económico é sustentável ecológica e socialmente durante gerações?
  • confiança em si mesmos: o sistema económico ajuda as pessoas a adquiri o sentido do seu próprio valor, da sua própria liberdade e capacidade ou deixa-as totalmente sujeitas a decisões alheias?
  • universalidade: o sistema económico e as políticas económicas centram as suas atenções sobre os elementos evidenciados em favor da família humana global, para além de toda e qualquer fronteira política, nacional ou regional?
  • paz: o sistema económico promove uma paz construída sobre a justiça?

Desenvolvimento sustentável

“O desenvolvimento, para ser sustentável, tem que dar-se a favor dos pobres, da natureza, do trabalho e da mulher. Ele deve conciliar o crescimento económico com o emprego, o respeito pelo ambiente, a possibilidade de autovalorização, a equidade»7.

1.1.2 A ordem política mundial actual

  • As democracias actuais não estão ao serviço do povo; antes, estão ao serviço dos interesses políticos e económicos dos vários partidos.
  • O partido do governo e a oposição gastam mais tempo a combater-se mutuamente para manter ou conquistar o poder do que a procurar o bem comum nacional.
  • O programa político de cada país sofre sempre a influência dos “centros do poder mundial”.
  • O mundo como um todo sofre a imposição de um mesmo modelo de democracia, igual para todos.
  • A nível político, prevalece a exclusão dos cidadãos, com base na discriminação étnica, religiosa, etc.
  • O capital, neste nosso mundo, beneficia duma defesa feita de alianças político-militares.
  • Tanto os países capitalistas como os comunistas são responsáveis por terem desenvolvido um aparelho burocrático que não dá a verdadeira liberdade aos cidadãos.
  • Certos países ainda continuam a praticar a tortura, por razões políticas.

Estória duma vítima da tortura no Médio Oriente

«Logo desde o fim da adolescência, eu estive directamente envolvido nas actividades dos meus pais, dos meus irmãos e da minha irmã, em oposição ao regime do meu país. Há seis anos, a minha irmã foi presa; um ano mais tarde foram presos os meus pais e os meus irmãos. Nunca mais tive notícias deles.

Depois do seu desaparecimento, entreguei-me à causa da luta pela democracia. Mas a polícia logo começou a ter suspeitas de mim e, uma noite, ao sair da padaria onde trabalhava, fui agarrado e arrastado para um automóvel que já estava à espera. Num ponto de semáforo, tentei escapulir-me, mas deram-me um tiro numa perna. A deitar sangue e com muitas dores, foram-me vendados os olhos e fui levada para a cadeia. Lá me interrogaram e bateram durante quatro ou cinco horas, sem parar. A princípio, deram-me murros; depois, bateram-me com um cassetete que tinha a ponta de aço. Quando comecei a perder os sentidos, fui jogada para uma cela, com as mãos

atadas atrás das costas. Os meus carrascos continuaram a atormentar-me com cabos eléctricos, na planta dos pés. Para acabar, deram-me uma injecção e deixaram-me ali, sozinha.

No dia seguinte, fui interrogada outra vez e fui levada para uma cela contígua para convencerem algumas mulheres presas a que confessassem. Quando os guardas notaram que elas ainda não estavam a dizer a verdade, levaram-me para um quarto, ataram-me a uma cruz e regaram-me com gasolina. Fiquei lá várias horas, sob a ameaça de ser queimada e violentada por um dos guardas. Dois dias mais tarde, os meus rins deixaram de funcionar e levaram-me para o hospital. Como as minhas pernas estavam fracturadas em vários sítios, tiveram que me aplicar pregos de aço para conseguirem que os ossos ficassem juntos. Quando me recuperei um pouco, fui levada de novo para a cadeia e fiquei amarrada várias horas numa posição nada natural. Dia após dia, a tortura foi continuando. Deixaram-me suspensa do tecto por uma só mão; fui batida e fui queimada com cigarros; quase perdi a vista. Depois, fui obrigada a ficar a ver mulheres presas a serem torturadas e violadas. Muitas delas morreram. Quando me mandaram de novo para o hospital, fiquei a saber que não queriam realmente matar-me: só queriam destruir-me psíquica e fisicamente.

Enquanto eu estava no hospital, um dos enfermeiros drogou os meus guardas e ajudou-me a fugir. Chegámos finalmente à fronteira, viajando de noite e escondendo-nos de dia».

1.1.2.1 Militarismo e comércio de armas

  • Entre 1960 e 1990, a despesa militar mundial aumentou 150%, com maior crescimento nos países do Sul. Eles são agora responsáveis por 20% da despesa militar, contra os 7% do ano de 1960.
  • Supermercado dos armamentos: os países ricos tornam-se ainda mais ricos através do comércio de armas; os países pobres tornam-se ainda mais pobres mediante a compra de armas.

As despesas com armamentos tiram fundos necessários para a alimentação, para a assistência à saúde, para a educação, para o fornecimento de água, etc., dos países em vias de desenvolvimento.

  • Em média, há 19 soldados por cada médico, nos países pobres.
  • O militarismo está a destruir os povos e o ambiente.
    • Actualmente, a despesa global com armamentos é 2.400 vezes mais elevada
    • que a despesa internacional a favor da faz
    • Meio milhão de cientistas em todo o mundo estão a fazer pesquisa e
    • desenvolvimento tecnológico para a actividade militar.
    • Os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas (a China, a França, a Rússia, o Reino Unido e os Estados Unidos) são os cinco maiores exportadores de armamentos para os países em vias de desenvolvimento.
    • Existem armas químicas enterradas em 215 cidades dos Estados Unidos: o saneamento da situação deverá custar 16 biliões de dólares, e talvez sejam precisos 40 anos para levá-lo a termo.
    • Para além das causas estruturais políticas, sociais e económicas da violência neste mundo, é evidente que a proliferação dos armamentos intensifica o impacto dessa violência. Segundo o Relatório sobre o Desenvolvimento Humano de 1994, que foi publicado pelo UNDP (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), a falta de segurança para o homem, devida à violência, é hoje um fenómeno “global”. Nos países em vias de desenvolvimento, uma enorme quantidade de fundos destinados a projectos sociais são desviados para a aquisição de armamentos, embora a probabilidade de se vir a morrer por desnutrição ou doenças, que se poderiam prevenir, sejam 33 vezes maiores que a de morrer numa guerra de agressão vinda de fora.
    • Em 1996, houve 39 guerras locais e duas guerras regionais, muitas delas contando com a presença de mercenários estrangeiros.

1.1.2.2 Minas anti-pessoal

«As minas anti-pessoal não podem ser aceites como dados de facto: elas são uma realidade de morte» (juiz Michael Kirbu, Human Rights Report on Cambodja, Nações Unidas).

a) Dados sobre as minas anti-pessoal

  • Foram plantados 110 milhões de minas terrestres anti-pessoal; só 100.000 dos 2 a 5 milhões referentes a 1993 foram retiradas.
  • Em cada ano, 15.000 pessoas são mortas ou ficam feridas por minas anti-pessoal.
  • O preço médio duma mina anti-pessoal é de 3 a 30 dólares.
  • O custo da retirada duma mina anti-pessoal é 300-1000 dólares.
  • No Camboja, fazem-se 500 amputações por mês; uma pessoa em cada 236 sofreu a amputação de um membro superior ou inferior.
  • A maior parte das vítimas são civis, na maioria mulheres e crianças.

Dois jovens adultos fizeram uma longa viagem até Roma. Conseguiram marcar uma audiência privada com o Santo Padre e informaram-no sobre os avanços na nova tecnologia militar; de seguida, foram ter com o Superior Geral dos Jesuítas e deram-lhe alguns conselhos sobre lugares para onde mandar os seus Jesuítas fazer missão; por fim, encontraram um grupo de jornalistas e outros representantes. Um destes jovens, Keo Sovann, é fisioterapeuta; o outro é director duma empresa comercial em desenvolvimento acelerado. Chama-se Tun Channareth; é cambojano e é gestor duma fábrica de cadeiras de rodas; tem 6 filhos e não tem pernas - ambas perdidas por causa duma mina anti-pessoal. Foi assim que ele exprimiu o desejo que o seu povo tem de viver uma vida sem minas anti-pessoal:

«…o nosso povo sentir-se-ia muito feliz, porque, assim, poderia apoderar-se da terra para plantar arroz, teria a liberdade de construir uma casa, de viajar sobre estradas e caminhos de ferro, e a possibilidade de ganhar a vida e sustentar-se».

Tun Channareth não parece estar a pedir demais; no entanto, como é que é possível em países tão afastados do Camboja e de outras nações “infestadas” de minas, responder a esta obscena e indiscriminada violência?

Este capítulo vai descrever, a traços largos, a abordagem adoptada pelas Irmãs de Loreto (Instituto da Bem-Aventurada Virgem Maria) em resposta ao problema global das minas anti-pessoal. Foi em 1992 que começou a Campanha Internacional para a Eliminação de Minas, por obra de um escol de Agências não Governamentais (ONGs) e Organizações para os Direitos Humanos, na tentativa de alcançar um nível suficiente de consciência pública que altere o horizonte político e elimine esta arma convencional dos arsenais mundiais8. No espaço de três anos, ela tornou-se uma das mais importantes campanhas globais jamais realizadas. Mais de 100 ONGs estão agora envolvidas no projecto e um número sempre crescente de países apoia a proibição total do fabrico, armazenamento, disseminação e uso de minas anti-pessoal. As Irmãs de Loreto, que se dedicam especialmente aos marginalizados, a mulheres e crianças em particular, e com o desejo de responder de maneira não violenta à guerra e à violência, decidiram fazer parte da campanha contra as minas anti-pessoal. Eis as modalidades do processo adoptado:

  • A Congregação tinha uma ligação íntima com o Serviço aos Refugiados dos Jesuítas, uma das ONGs envolvidas nesta campanha, e, assim, estavam numa boa posição para colaborar com eles, receber deles informação e recursos e, através deles, fazer ligação com outros grupos envolvidos na campanha: o Mines Advisory Group (do Reino Unido); o CAFOD (também do Reino Unido; O Australian Catholic Relief, a Vietnam Veterans of America Foundation, a Mani Tese (da Itália) e a Pax Christi (da Irlanda).
  • Foi realizado um Seminário de estudo para cerca de 100 membros da Congregação, representantes das ONGs e de partidos políticos (a cuja abertura compareceu um ministro importante). Um conferencista do Mines Advisory Group (MAG) apresentou, em linhas gerais, os tipos, objectivos e consequências das várias minas e referiu algumas das suas experiências como “desminador”. Um conferencista da Congregação fez a ligação entre a campanha das minas e a missão central da sua Congregação.
  • Dedicou-se uma tarde desse Seminário ao planeamento operativo em pequenos grupos.
  • Fez-se a distribuição de dossiers contendo informação sobre minas e sobre a campanha, sugestões de actividades, cartas modelo e endereços de líderes mundiais, a todos os participantes - e foram também enviados a todas as províncias da Congregação.
  • Foi enviado a todos os jornais principais (mas só um publicou) um comunicado a dar os pormenores do encontro, bem como a posição da Congregação.
  • Foram distribuídas cópias das intervenções feitas no Seminário a todas as comunidades da Congregação.
  • A administração geral fez alusão à campanha das minas nas suas cartas, em reuniões e no seu boletim informativo sobre a justiça social. Os membros da Congregação receberam estímulo a escrever ao coordenador, apresentando o esquema de qualquer actividade que realizassem.
  • Também enviaram materiais de actualização sobre minas anti-pessoal a todas as comunidades: informações relativas aos vários Relatórios das Nações Unidas; detalhes de medidas tomadas por vários indivíduos e grupos; um relatório de situação sobre o número de países comprometidos com a proibição total das minas; e sugestões para ulteriores medidas nesta matéria.
  • O coordenador estava sempre em contacto com o Serviço dos Refugiados dos Jesuítas; estabeleceu contacto com um outro apoiante da campanha; manteve informado o director da International Landmines Campaign sobre as suas actividades, e utilizou material de apoio proveniente de agências diversas.

Actividades Realizadas

  • Fez-se um esforço unânime por escrever cartas aos líderes políticos locais, bem como aos ministros da defesa, e aos líderes de países que produziam ou distribuíam bombas anti-pessoal.
  • Alguns membros inscreveram-se na Amnesty International, na Pax Christi e em outros grupos para a paz, ou participaram em campanhas nacionais ou eclesiais:
    • Redigiram-se petições e recolheram-se assinaturas
    • Distribuiu-se informação às comunidades locais
    • Introduziram-se nas escolas diversas actividades criativas de conscientização
    • Estabeleceu-se uma rede de oração internacional entre os idosos, centrada sobre a questão das minas; deu-se a respectiva informação; e deu-se estímulo às pessoas para que escrevessem.

“Houve pouca pressão directa sobre os políticos: talvez tenha havido demasiada direcção a partir de cima, sendo difícil saber quantos membros da Congregação estiveram de facto envolvidos na campanha. Mas alguns mexeram-se; foram tomadas medidas; alguns estão agora melhor informados sobre um problema global; e a Congregação, por envolvimento numa acção de colaboração, alcançou uma certa perícia em modalidades de colaboração, coordenação, comunicação e angariação de recursos… Se duma maneira ou doutra pudermos fazer com que em Angola, no Afganistão, no Rwanda, no Sudão, ou em países “em risco”, os homens possam cultivar as terras, as mulheres possam ir à fonte e as crianças possam saltar pelos arrozais em paz e com segurança, já teremos feito alguma coisa” (Do Discurso do Conselheiro Geral no Seminário).

Se o Mundo se Desarmasse…9

  • poderíamos salvar a vida de 5 milhões de crianças que morrem de diarreia todos os anos. Preço: 700 milhões de dólares, ou seja, a quantia que o mundo gasta em armas em apenas 6 horas;
  • poderíamos equipar 80.000 aldeias com bombas para tirar água. Preço: 12 milhões de dólares, ou a quantia que se gasta num só teste nuclear;
  • poderíamos salvar as florestas tropicais. Preço: 1,4 biliões de dólares por ano por um período de cinco anos, ou seja, a quantia que o mundo gasta em armas no período de 12 horas;
  • poderíamos impedir a desertificação. Preço: 5,6 biliões de dólares, ou seja, a quantia que o mundo gasta em armamentos em apenas 2 dias.

1.1.3 A Realidade Demográfica Actual

  • Entre 1950 e 1996, a população das regiões menos desenvolvidas aumentou 168%, em comparação com um aumento de apenas 45% na das regiões economicamente mais desenvolvidas.
  • Entre 1950 e 1955, o aumento anual da população mundial situou-se nos 47 milhões de pessoas. Entre 1990 e 1995, o aumento anual foi de 81 milhões, 69 dos quais se referem à África e à Ásia.
  • A população actual do mundo é de 5,7 biliões.

1.1.4 As Crianças

Fome

  • Nas regiões em vias de desenvolvimento, uma criança por cada três vive sub-alimentada.
  • Mais de 40.000 crianças morrem por dia, por causa da desnutrição, ou por causa de doenças de fácil prevenção.
  • A cada minuto, morrem 30 crianças por falta de alimento e remédios de preço acessível.

Saúde

  • Por cada ano que passa, nascem 120.000 crianças mentalmente diminuídas devido à falta de iodo, uma deficiência que pode ser remediada de modo fácil e pouco dispendioso.
  • Por ano, 250.000 crianças perdem a vista por completo, por falta de vitamina A.
  • 4 de entre 5 crianças no espaço rural não têm água potável ou saneamento básico.
  • 4 de entre 5 não têm acesso a uma assistência médica moderna.

Educação

  •  90% das crianças de países em desenvolvimento matriculam-se na escola; mas só 68% terminam os primeiros quatro anos.
  • Em 1993, havia 130 milhões de crianças (com idade entre os 6 e os 11 anos) que não iam à escola

Guerra

  • Em 1995, só na África, e durante os primeiros 10 meses do ano, meio milhão de crianças morreu devido a conflitos armados.
  • Durante esta última década, 6 milhões de crianças ficaram incapacitados por causa das guerras.
  • Também durante esta última década, 12 milhões de crianças foram desalojadas pela guerra.
  • Só na Libéria, há 15.000 crianças-soldados.

Problemas crescentes que afectam as crianças

  • Trabalho infantil e exploração económica: calcula-se que 200 milhões de crianças são forçadas a trabalhar.
  • Prostituição infantil: um milhão de crianças é forçado a prostituir-se de ano em ano; a maior parte contrai HIV / SIDA.
  • Meninos da rua: são mais de 100 milhões abaixo dos 15 anos.
  • Tráfico de bebés.
  • Comércio de órgãos de crianças
  • Metade da população de refugiados é constituída por crianças.

“Crianças em risco” : uma resposta concreta

A nossa participação no House Workers’ Movement (Movimento de Trabalhadores Domésticos) em todo o território Indiano, mostrou-nos a realidade das crianças envolvidas em trabalho doméstico. Tornámo-nos cada vez mais conscientes da situação destas pequenas criadas domésticas que são forçadas ao silêncio e têm de viver às escondidas, que por vezes são empregadas com vinculação mas designadas por “nossa” filha, “filha adoptiva”… Trata-se de meninas que sonham em poder brincar e poder usar uniformes escolares, mas que são castigadas quando abrem os livros escolares dos filhos verdadeiros da família para que trabalham.

Sunita era uma destas empregadas-meninas. O pai estava na cadeia e a Sunita foi mandada para Bombaim para trabalhar, tinha então 9 anos. Um dos dirigentes da Bombay House Workers’ Solidarity tirou-a daquele lugar de tortura. Sunita tinha 11 anos nessa altura, com lindo cabelo preto de corte irregular, com um olhar escuro aterrado, e com cicatrizes de queimaduras por todo o corpo. Em caso de pequenos erros ou incapacidade na realização do trabalho que lhe tinha sido ordenado, o patrão batia-lhe com um ferro em brasa. O juiz, no tribunal, deixou-nos escolher: ou ganhar a causa e entregar Sunita à Remand Home (Casa de Correcção ) a cujo cuidado ficaria até aos dezoito anos, ou então retirar a queixa e resgatá-la.

Decidimos pela segunda alternativa. Recolhemos a Sunita, conseguimos a tutela, e pusemo-la na escola.

Poucos dias depois, chegou Arathi, uma vítima de rapto. A Mónica escapuliu-se da casa de prostituição. A Jessie foi violentada por uma quadrilha aos sete anos. Todas elas crianças profundamente feridas e traumatizadas.

A nossa resposta costuma ser mais do tipo gestão de crises. Trabalhamos em ligação com advogados, com diversas Congregações e com casas da criança para reabilitar estas pessoas. Actualmente já funcionamos como um movimento de pesquisa com um grupo alargado de pessoas e comunidades empenhadas na salvação das vítimas do sexo comercial na cidade de Bombaim.

A pesquisa e o compromisso já começaram, mas o caminho não está ainda desvendado…A Conferência Episcopal da Índia, tal como a Comissão Laboral, apoiam este nosso empenho. Estamos envolvidos, a vários níveis, num vasto esforço de colaboração para dar às nossas crianças “um futuro de justiça e paz”.

Jeanne Devos, ICM, Índia

1.1.5 As Mulheres

Eis as áreas críticas de maior preocupação, actualmente, em relação à mulher:

  • Pobreza: 60% entre 1 bilião de pobres em zonas rurais são mulheres.
  • Educação: Entre os 960 milhões de adultos analfabetos, 70% são mulheres. De entre os 130 milhões de crianças que não têm escola primária, 70% são raparigas.
  • Saúde: Todos os anos morrem 500.000 mulheres devido a complicações resultantes da gravidez.
  • 500 mulheres morrem todos os dias devido a abortos de risco.
  • Violência: 1/3 das mulheres é vítima de maus tratos físicos. Cada 8 segundos, uma mulher é maltratada fisicamente. E cada 6 minutos, uma mulher é violada. Existem 110 milhões de raparigas e mulheres que sofreram mutilação dos seus órgãos sexuais; 2 milhões de mulheres continuam a ser mutiladas cada ano. Mais de 1 milhão de bebés morrem todos os anos devido à desnutrição, ao abandono e aos maus tratos; e não teriam morrido se não fossem raparigas.
  • Conflitos armados e outros: as mulheres constituem 80% dos 100 milhões de pessoas deslocadas (dentro da sua própria pátria) e dos 29 milhões de refugiados do mundo. Gastam-se 800 biliões de dólares por ano em armas; mas a comunidade internacional não tem os 6 biliões que são precisos para dar educação a cada criança do sexo feminino.
  • Participação económica: As mulheres recebem entre 30-40% menos que os homens por fazerem trabalho igual. As mulheres fazem 2/3 do trabalho em todo o mundo mas só recebem 10% da receita anual, e são donas de apenas 1% da terra em todo o mundo. Se fosse atribuído um valor económico ao trabalho doméstico, que não é pago, ele valeria 11 triliões de dólares e juntaria mais 70% à produção mundial.
  • Participação no poder e processos decisórios: a porção de lugares nos parlamentos mundiais ocupados por mulheres em 1986 era de 12% (15% em 1988).
  • Violência contra a mulher, em países selectos, por volta de 1990:
    • EUA 1 em cada 5 mulheres adultas fora violada;
    • Perú 70% dos crimes denunciados à polícia tiveram a ver com espancamento pelos maridos;
    • Noruega 25% das pacientes na área da ginecologia sofreram abuso sexual dos seus companheiros;
    • Tailândia No maior bairro da lata de Banguecoque, 50% das mulheres casadas eram espancadas sistematicamente.

1.1.5.1 Exemplos de empenhamento a favor das mulheres

Trechos de documentos Capitulares

“O nosso ministério específico enquanto mulheres, que era considerado por Comboni como indispensável para a missão evangelizadora, faz da promoção da mulher a nossa prerrogativa. As mulheres deveriam tornar-se conscientes dos seus valores , da sua dignidade, e da função essencial a que são chamadas na família, na Igreja e na sociedade.

Irmãs Combonianas

“…Por sermos mulheres nós próprias, queremos trabalhar com as mulheres e para as mulheres, para podermos encontrar a nossa voz autêntica na sociedade e na Igreja. A nossa apreciação feminina da vida impele-nos a viver em profundo respeito para com cada pessoa humana e para com a terra que nos sustenta a todos. Nós desejamos possuir a perspectiva e a atitude íntima que leva a ver Deus em tudo, a ser solidárias com os pobres e a procurar compreender o mundo na visão que dele têm. Com compaixão e com coragem, com aquela visão que só pode advir da contemplação do Evangelho e dos sinais dos tempos, é em conjunto que nós procuramos a conversão contínua de nós próprias e dos outros, a fim de podermos promover a justiça e a paz”.

Companhia da Santa Úrsula

Exemplos de participação no poder por parte das mulheres

Os homens (pescadores) de Cattiparambu eram viciados do álcool. As suas magras entradas eram gastas na bebida, o que levava a rixas no seio das famílias, divisões e até assassínios. Em conjunto com as várias organizações que trabalhavam com elas, as mulheres da aldeia decidiram acabar com esta praga. Assim, organizámos uma “dharna” (manifestação) e informámos a polícia e outras autoridades sobre o plano que tínhamos. Sentávamo-nos, aos grupos, diante de todas as lojas de “arrack” (uma bebida local) da aldeia, dia e noite. E fizemo-lo durante três meses seguidos. Durante este período, não deixávamos nenhum homem entrar em qualquer das lojas de “arrack” nem deixávamos que mais “arrack” entrasse nelas. Uma vez, um dos homens entrou numa dessas lojas à força e saiu bêbedo. As mulheres pegaram nele, tiraram-lhe a roupa, ataram-no a um coqueiro e deram-lhe uma carga de pancada, dizendo-lhe também que já tinham sofrido que chegasse durante todos os anos passados. Deixaram-no naquela situação para os restantes homens verem. Depois deste incidente, mais ninguém entrou naquela taberna. E como as mulheres não puderam trabalhar durante todos aqueles meses, todas as suas famílias passaram fome.

Claro que enfrentámos oposições, passámos por muitas dificuldades e recebemos todo o tipo de ameaças…Até nós passámos fome, passámos noites sem dormir…Mas permanecemos unidas até que os homens do governo foram obrigados a retirar as licenças de vender álcool e a fechar as lojas de arrack na aldeia…

Quanto a mim, isto foi uma “experiência de Deus”…Eu tive experiência do apoio da minha comunidade; a minha vocação de FMM passou por um desafio; e a minha dedicação à justiça tornou-se mais profunda.

Irmã Cecily George, FMM, Índia

A consciência de ser mulher, uma fonte de transformação

Isto é a história dum grupo de camponesas de Culong, Guimba, Nueva Ecija (nas Filipinas). A maior parte delas faz parte da Comunidade Cristã de Base, que é animada por uma líder dinâmica deste lugar. Em certa ocasião, no mês de Setembro de 1994, a equipa do Programa Feminino do Instituto Sociopastoral foi convidado pela dirigente a fazer uma acção de formação, mas sem ser clara a respeito do tipo de formação desejada. Marcou-se um encontro inicial: seria um Seminário de Orientação Básica com um só dia de duração, utilizando um método experiencial. Participaram trinta e cinco mulheres.

O Seminário acabou por ser um dia de revelação para todos. As participantes descobriram-se a si mesmas enquanto pessoas, especialmente a sua beleza, os seus talentos e o seu valor como MULHERES. Tornaram-se conscientes da situação e da condição em que sofriam as mulheres em casa, na sociedade e até na Igreja: a mulher é a pessoa subordinada, explorada, marginalizada e excluída do processo decisório. Durante o Seminário, elas aprofundaram o seu apreço pelo papel da mulher como procriadora e como protectora da vida; mas, ao mesmo tempo, descobriram que a mulher dá vida de muitas mais maneiras do que pela procriação.

Mal sabíamos nós que este encontro iria marcar o início duma caminhada em conjunto até hoje, Janeiro de 1997. O Seminário foi a primeira degustação das águas vivas que elas tiraram dos seus “poços”. Elas estavam sedentas por descobrir a vida enquanto mulheres…

Os encontros seguintes vieram esclarecer a diferença entre sexo e género. Elas tornaram-se conscientes dos papéis estereotipados que tinham ficado por conta das mulheres e dos homens, e que tinham sido transmitidos de geração em geração por uma injusta cultura patriarcal. Descobriram, além disso, o grande dom da FÉ da mulher - em si mesma, noutros e, sobretudo em Deus. Desenvolveram um sentido mais profundo da sua inter-relação com a natureza - ao acreditarem que uma vida sadia depende dum ambiente sadio; e que os seres humanos existem numa relação simbiótica com a terra. Rezaram e ficaram com a esperança de que os seus maridos também pudessem receber o mesmo tipo de formação que elas.

RESULTADOS: Elas organizaram-se formalmente como uma associação de mulheres. Os seus maridos já tiveram o seu primeiro encontro e já pediram para repetir. A sensibilidade das mulheres ao género está a aumentar. Já eliminaram o uso de pesticidas e de adubos inorgânicos. Agora estão a promover a agricultura orgânica. Decidiram usar o “carabao” na agricultura para evitar a poluição; servem leite de “carabao” aos seus filhos e ajudam a eliminar a ameaça de extinção desta espécie pela cultivação mecânica. Elas SONHAM com o momento em que mulheres e homens, tal como toda a criação, haverão de viver em harmonia, na união, no equilíbrio e no respeito!

Josefina Diaz, Irmãs Missionárias do Imaculado Coração de Maria (ICM), Filipinas

Algumas histórias de sucesso vindas da Zâmbia:

  • As mulheres católicas participam nos funerais e efectivamente protegem a viúva dos parentes violentos do falecido, que querem levar tudo.
  • As mulheres procuram dar apoio às vítimas da violência doméstica para melhorarem as atitudes da polícia a seu respeito.
  • As mulheres usam os resultados da pesquisa científica sobre as causas da violência para poderem lutar contra ela.
  • As mulheres têm ajudado as “viúvas do desastre aéreo do Gabão” a conseguirem justiça sobre as indemnizações a que têm direito.
  • As mulheres marcharam até ao Palácio do Governo para protestar contra o crescente número de casos de violação; depois vieram algumas detenções10.

No primeiro MICROCREDIT WORLD SUMMIT (Cimeira Mundial do Pequeno Crédito de Fevereiro de 1997), a Rainha da Espanha partilhou das suas experiências e das suas esperanças de mudança:

Ao discursar na sessão inaugural, a Rainha Sofia recordou a sua visita recente a Bangladesh, um dos países mais pobres do mundo. Antes de empreender a viagem, ela tinha levantado problemas à política de fornecer baixo crédito às mulheres em áreas rurais do mundo. Viria esta prática a criar benefícios para estas mulheres e a dar resultados práticos na luta pela erradicação da pobreza que já lhes estava a negar direitos humanos básicos?

“…Durante a minha visita às aldeias e durante as minhas conversas com os capelães hospitalares e com generosas mulheres Bengalis, eu descobri a resposta a estas perguntas. Descobri-a ao experimentar a mais profunda solidariedade com as mulheres que sofreram ao passarem por acontecimentos pessoais dramáticos. Através do seu testemunho e das provas tangíveis do seu trabalho, que conseguiram principalmente em relação a objectivos práticos e a produtos, eu consegui compreender que é possível vencer a pobreza e criar uma Utopia!”

1.1.5.2 O Eco-Feminismo

A violência que está a praticar-se contra as mulheres e contra o ambiente reflecte uma ligação íntima. Eco-feminismo, como a palavra indica, trata das preocupações com o ambiente e com as mulheres. O termo foi usado pela primeira vez em 1974 pela escritora francesa Françoise d’Eaubonne para descrever a capacidade que as mulheres têm no campo da mudança ambiental.

A crescente consciência dos problemas das mulheres está intimamente ligada à crescente consciência da destruição do ambiente. Tanto as mulheres como o ambiente estão a sofrer violência. Em muitas culturas, nós ouvimos os “gemidos” das mulheres e os “gemidos” da própria criação. A destruição do ambiente tem um efeito especialmente grave sobre as mulheres. “As mulheres sofrem mais que todos os outros quando não há água potável, combustível ou ambiente salubre. As mulheres sabem o que quer dizer haver falta de água; sabem como a saúde das suas famílias é afectada quando o ambiente em que vivem não lhes dá segurança. Elas sabem o que significa a “ruptura” do delicado equilíbrio ambiental”11.

As mulheres dos países mais pobres são duplamente afectadas pela crise ecológica, já que não têm como comprar água engarrafada, comida produzida organicamente, ou pagar pelos cuidados médicos. A injustiça que se está a fazer ao ambiente está a agravar as injustiças que se estão a fazer às mulheres, especialmente às mulheres mais pobres.

O movimento eco-feminista actual tem contribuído para uma compreensão mais profunda da interligação da criação como um todo. Desta forma, o movimento eco-feminista actual procura promover relações novas entre mulheres e homens, entre seres humanos e natureza - relações de respeito mútuo, relações que dão VIDA.

Seguem-se alguns trechos retirados do inquérito preparatório que foi enviado aos participantes da 11.ª Assembleia Geral do Encontro Asiático de Religiosos (AMOR) que se realizou na Índia, em Junho de 1997:

Fundamentos do Eco-Feminismo:

  • As raízes da história humana, em que a inter-relação do ecossistema na sua totalidade era experienciado na sua plenitude.
  • A percepção de que a terra e a mulher geram vida nova: o feminino era reverenciado como ‘Deusa-Mãe’.
  • A correlação que existe entre a ecologia e o feminismo e a nossa compreensão da mesma.
  • Os valores comuns que promovem e sustêm a ‘vida’ na comunidade humana têm sofrido os efeitos duma erosão progressiva, em virtude dos ataques levados a cabo pelos valores / ideologia patriarcais e capitalistas.
  • A “dominação” da mulher e da terra, sob a forma do controle ou da submissão, especialmente das mulheres e da natureza; a violência e a destruição da vida …reflectem as forças em acção no nosso contexto actual.

“Rebentos” de Eco-Feminismo:

  • Um certo sentido de suficiência-frugalidade (Robert Muller, ex-Assistente do Secretário Geral das Nações Unidas, actualmente Chanceler da Universidade da Paz, na Costa Rica).
  • Uma certa maneira de encarar o “desenvolvimento” e o “progresso”, em que a comunidade dos povos e o cuidado a ter com a terra ficam no centro das atenções.
  • A protecção da natureza contra a exploração indiscriminada por parte de interesses capitalistas e “direitos adquiridos” é essencial para a existência humana.
  • Uma crescente apreciação do papel das mulheres enquanto criadoras e protectoras da vida no actual contexto da destruição da vida - humana e da natureza.

1.1.6 Os Refugiados

A existência de tantos refugiados é sinal de um mundo em apuros. É impossível olhar para os refugiados e para a maneira como a comunidade internacional responde às suas necessidades, sem se ter consciência de que a sua presença é um sintoma de que algo deve estar muito avariado no sistema internacional.

  • Há cerca de 29 milhões de refugiados e mais 100 milhões de pessoas deslocadas (tanto dentro como fora dos seus países de origem). Só uma pequena minoria de refugiados consegue sair do próprio país em tempo de guerra; a maioria fica na “armadilha”, à mercê de consequências pavorosas.
  • O número de refugiados está a aumentar devido às violações dos Direitos Humanos: políticos, económicos, étnicos e do ambiente. O crescente comércio de armas, as práticas comerciais injustas, as políticas desumanas de endividamento, a exclusão política, cultural e religiosa, o racismo, a desertificação e outros desastres ambientais…continuarão a fazer aumentar o número de refugiados à medida que avançamos para o século XXI.
  • Os refugiados tornaram-se coisas “descartáveis” : os relatórios de testemunhas presenciais do tratamento dado aos refugiados do Rwanda confirmam-no.

Definição de “refugiado”

O direito internacional define “refugiado” como uma pessoa que:

“devido a um temor bem fundamentado de ser perseguida por motivo de raça, religião, nacionalidade, participação num dado grupo social ou opinião  política, vive fora do país a que pertence e não pode ou, em virtude desse temor, não está disposta a servir-se da protecção desse país ou, por não ter nacionalidade e estar fora do país da sua residência habitual em razão de tais acontecimentos, não pode ou, devido a esse temor, não está disposta a ali regressar”.

Esta definição exclui aquelas pessoas que se encontram deslocadas por causa da violência ou acto de guerra e que não foram seleccionados como alvo de perseguição individual.

O sistema internacional de protecção aos refugiados está a desintegrar-se. Este sistema foi constituído com base no consenso de que os refugiados tinham um direito especial perante a comunidade internacional, o de que era responsabilidade desta dar protecção e assistência aos refugiados - e não apenas a responsabilidade dos governos dos países a que arribassem. Actualmente, este consenso parece ter problemas. Todos os três componentes do sistema, quer dizer, a definição legal de “refugiado”, a própria Convenção, e o UNHCR (Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, que é o agente principal do sistema), estão a sofrer alterações:

  • os governos estão a fazer uma aplicação mais restrita da definição clássica de “refugiado”, tal como se encontra integrada na Convenção da ONU de 1951 e do Protocolo de 1967;
  • estão a aumentar os problemas referentes à conveniência daquela definição numa época em que a maior parte dos refugiados vive afastada por questões de guerra e violência e não por perseguição individual, e em situações em que a linha divisória entre a motivação política e a motivação económica para a fuga é cada vez mais ténue;
  • o enfraquecimento da liderança do Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados em questões de protecção e assistência aos refugiados.

Os riscos desta erosão do sistema internacional são elevados. Noventa por cento dos refugiados de todo o mundo vêm dos países do Sul; 90% deles ficam no Sul. Os governos de países muito mais pobres que os da Europa Ocidental ou os da América do Norte - países que albergam um número muito maior de refugiados - estão a perguntar por que razão se espera que eles tomem conta dos refugiados, enquanto que países mais ricos estão a fechar-lhes as portas. A falência das três soluções tradicionais para as situações do refugiado (repatriação voluntária, integração local, e recolocação num país de alternativa) trazem consequências tanto para o Norte como para o Sul.

Um refugiado conta a sua estória:

“Cheguei à Austrália em Julho de 1995, directamente dum país da África Central então devastado pela guerra, o Burundi. Foi uma grande mudança para mim, pois que não havia nada de comum entre as vidas que se levam nestes dois países. Embora o Burundi tenha andado nos cabeçalhos dos meios de comunicação há já dois anos, e apesar dos seus famosos tamborileiros, o meu país ainda é desconhecido por muita gente. Sempre que me perguntam onde é que fica, eu só digo que é o vizinho do Rwanda, e é então que recordam as tristes fotografias do genocídio de 1994.

“Aqui, na Austrália, eu tenho levado uma vida diferente, na qualidade de membro mais recente da família dos refugiados. Já disse adeus ao Verão sem fim da minha terra, especialmente ao Lago Tanganyika, que deu forma à minha vida, quando a violência estava a aumentar na minha cidade. Não pude dizer adeus aos meus amigos ou mesmo aos meus pais. Mas o que mais dói é aquela cruel sensação que vai reaparecendo: a sensação de que talvez nunca mais os volte a ver. Muitas pessoas, lá na minha terra, chamam-me o “homem da sorte”. Mas eles mal sabem quanto é difícil viver longe e, sobretudo, viver sozinho…

“Mal poderão imaginar que eu sou como uma folha levada pelas águas do rio. É difícil encontrar resposta para a eterna e embaraçosa pergunta: ‘Quando é que vais voltar para casa?’ Mas quando sabemos que não temos outra alternativa para poder continuar a viver, nós fechamos os olhos e tomamos uma decisão.

“O maior desafio que se possa fazer a quem está na minha situação é a adaptação ao novo ambiente. Para consegui-la, o factor mais importante é a autosuficiência económica. Isso é certamente um pré-requisito, e mais para um refugiado do que para qualquer outra pessoa, precisamente para poder ser aceite, ao menos em parte, pela comunidade.

“Eu aprendi, pela pouca experiência que possuo, que tenho de ‘trabalhar como um refugiado’ para poder sobreviver. Cheguei à conclusão de que um refugiado tem de ser forte, tanto fisicamente como psicologicamente. Isso mesmo: ainda que tenha de chorar, é preciso deixar as lágrimas escorrerem para dentro do coração. Nós trazemos o orgulho e a tristeza dentro de nós próprios, mas temos que continuar a sorrir. A terra continua a dar as suas voltas e o sol continua a brilhar para todos. Ao fim do dia, nós simplesmente suspiramos e cantamos, à espera de que qualquer dia, algures, alguém se cruze com o nosso olhar e se interesse por nós” 12.

Mais vale prevenir que remediar…

Os movimentos em prol dos refugiados não são inevitáveis, mas podem ser evitados se alguém tomar medidas para reduzir ou eliminar as ameaças que forçam as pessoas a sair do seu país para encontrar abrigo noutro lugar. Este é um princípio fundamental da nova abordagem do problema. O conceito de prevenção envolve actividades do tipo…

  • monitoria e pronto alarme,
  • intervenção diplomática
  • desenvolvimento económico e social,
  • resolução de conflitos
  • protecção dos direitos humanos e de minoria,
  • difusão de informação a eventuais procuradores de asilo.

O que significa lançar um ataque às raízes e às causas imediatas da fuga…

Está a pedir-se aos países de origem (dos refugiados) que eliminem as causas da fuga e facilitem o regresso dos refugiados ou das pessoas deslocadas. Por outras palavras, há uma tendência crescente para levar a comunidade internacional a interessar-se por situações que, até há pouco, costumavam ser tratadas como assuntos internos de cada país, como por exemplo, violação dos direitos humanos, repressão das minorias, discriminação, violência e perseguição.

 

Dez fases de actuação
  • Fase 1 aumentar o seu grau de conscientização
  • Fase 2 envolver-se
  • Fase 3 compreender os princípios do sistema internacional
  • Fase 4 compreender os problemas de actuação do seu próprio país
  • Fase 5 trabalhar pela justiça e pela paz
  • Fase 6 mostrar solidariedade
  • Fase 7 oferecer hospitalidade: “Benvindo, estrangeiro!”
  • Fase 8 participar no debate sobre a imigração
  • Fase 9 envolver-se na defesa da causa
  • Fase 10 prestar serviços que respondam às necessidades materiais,
  • sociais e espirituais

Conclusão

Enquanto muita gente na nossa sociedade volta as costas ou nega atenção aos estrangeiros que vivem no meio dela, alguns Cristãos e algumas Igrejas optam por ficar do lado dos desenraizados. Algumas Igrejas têm-se identificado com os estrangeiros e os exilados durante séculos. Estão a surgir sinais de esperança nas iniciativas comunitárias e eclesiais em todo o mundo, como na criação de novos ministérios, novos meios de cooperação ecuménica, e novas maneiras de apoiar a dignidade humana e criar comunidades sustentáveis.

Convidamos as Igrejas-membros a voltar a descobrir a sua identidade enquanto Igreja do Estrangeiro13 através do testemunho e do serviço a todos os níveis da vida das Igrejas.

1.1.7 Os Idosos e os Incapacitados

  • Estão a ser eliminados de maneira astuta;
  • A sociedade só dá valor aos que “produzem”;
  • São apenas tolerados, em vez de serem tratados com amor;
  • A sociedade e algumas famílias tendem a agir segundo um sistema de valores que os exclui.

1.1.8 Injustiças Culturais e Religiosas

  • Há uma distinção nítida entre o conceito de “cultura” dos povos indígenas e o conceito moderno de “cultura”: o primeiro não exclui ninguém; o segundo contém uma exclusão cultural intrínseca. • Só as “exclusões” culturais e religiosas já nos custaram, neste século, 120 milhões de vidas.
  • As pessoas são consideradas “não-pessoas” por razões culturais, linguísticas e religiosas.

  • Muitos governos têm uma agenda secreta de eliminação de grupos minoritários ou de “não-pessoas” por serem considerados “gente a mais”.
  • Até há pouco, os 41 milhões de povos indígenas da América Latina e de outras áreas eram consideradas “não-pessoas”: mas a sua situação, em muitas regiões, não mudou de maneira significativa.
  • Os grupos fundamentalistas e as seitas são frequentemente usados e sofrem abusos às mãos dos detentores do poder político. Por isso, são considerados como “uma ameaça” por outros grupos.
  • Globalmente falando, está a nascer uma nova cultura, com um novo sistema de valores, que vai substituindo os valores tradicionais religiosos e culturais. Os meios de comunicação de massa são os principais factores deste fenómeno.

1.1.9 O racismo

  • As pessoas estão a ser sistematicamente roubadas da sua humanidade e da sua esperança por causa da sua raça - através de práticas tendenciosas ao nível educacional, legislativo, legal, médico e religioso.
  • O racismo é um mal que existe em todos os sectores da sociedade e da Igreja.

- A Exclusão

Até há pouco, falava-se da marginalização de grupos, mas o fenómeno realmente novo consiste na sua exclusão. É fácil identificar os excluídos, mas é mais difícil identificar aqueles que praticam a exclusão.

- Trecho dum Documento de Capítulo Provincial:

«A universalidade - a herança que nos deixou Maria da Paixão - é, antes de mais, uma atitude espiritual de abertura que nos leva além-fronteiras, para além da etnicidade, das castas e das nacionalidades. O ponto de partida está em encetar a caminhada da conversão e reconhecer o nosso próprio etnocentrismo para podermos ultrapassá-lo e para irmos ao encontro do outro.

Na actual mistura de povos e no contexto do nacionalismo, as nossas comunidades interculturais e internacionais são chamadas a tornarem-se sinais e instrumentos de comunhão.

A justiça chama-nos a reconhecer e a respeitar a igualdade de cada pessoa e de cada cultura - e a trabalhar continuamente para arrancar os nossos preconceitos pela raiz, numa atitude de conversão permanente. Por conseguinte, os membros do capítulo provincial apelam para que aprofundemos a nossa consciência dos males do racismo / etnocentrismo - dentro de nós próprios - dentro das nossas comunidades da FMM, nas áreas em que servimos, e no mundo em geral, lutando pela eliminação das barreiras que nos impedem de nos juntarmos à mesa do Senhor.

Dentro de cada comunidade, os membros têm a corresponsabilidade de se convocarem uns aos outros para tornar esta declaração uma realidade na vida quotidiana».

Missionárias Franciscanas de Maria, E.U.A.

Agir contra o racismo

“Desde 1993, eu tenho trabalhado para mulheres imigrantes do Sudeste Asiático que vivem em Vancouver, no Canadá. Estas mulheres já verificaram que as organizações de serviço social são apenas um remendo em relação aos problemas mais prementes e fazem pouca obra de prevenção. Elas organizaram-se totalmente em vários e grandes grupos de protecção à mulher para educar, apoiar, trabalhar em rede e estudar estratégias conjuntamente com outras mulheres, para chegar a uma mudança na legislação e nas estruturas sociais.

O principal problema é a falta de reconhecimento da educação recebida no estrangeiro e das credenciais laborais no Canadá.

Os modos de discriminação que sofrem nesta área chegam a fazer com que um bacharelato, por exemplo, só dê, no máximo, para admissão ao Ensino Superior. Um diploma de pós-graduação talvez dê equivalência a primeiro grau académico.

Também há discriminação no local de trabalho: Sirjit diz que “apenas reparam para a cor da pele.., agem como se a pessoa não soubesse nada, tivesse problema com a língua, ou não virá a desempenhar as suas funções cabalmente”. Têm uma ideia estranha das mulheres Indianas - dão os empregos a pessoas médias e depois dizem: “você não tem experiência Canadiana”.

Diz Devi: “A pessoa tem que ser número um entre os melhores para poder ter tanto sucesso como um Canadiano de origem”.

E Pushpa afirma: “Está difícil para estrangeiros; eu tenho que alcançar resultados de 100% para conseguir um emprego de homem”. As observações destas mulheres estão carregadas de elementos racistas e sexistas - presumem ignorância devido à cor da pele; assumem que uma mulher Indiana não tem contributo a dar, ou que as competências adquiridas não têm valor algum; exprimem um racismo latente ao esperar melhor desempenho duma mulher imigrante com aparência diferente.

Acção: Instituir programas orientados para a obtenção de equivalências de credenciais estrangeiras. Ou fazer acções de formação e manuais práticos, por exemplo, sobre “Como Chegar a Professor em British Columbia”. Ou mesmo seminários de formação anti-racista e anti-sexista preventiva, bem como projectos capazes de promover as políticas estatuídas pelo British Columbia Multiculturalism Act (Lei do Multiculturalismo de British Columbia) de 1993.

Helen Ralston, RSCJ, Canadá

Existe um programa de formação anti-racista na Escola Secundária do Sagrado Coração em Bona. Em Berlim, é da Congregação do Sagrado Coração de Jesus a delegada para assuntos de migração junto do Cardeal Arcebispo da Diocese. Esta função coloca-a em contacto com a imprensa e com políticos que são os criadores da lei e da opinião pública em relação aos imigrantes. Ela tem sido animadora de um grupo de estudantes para agir sobre a lei dos imigrantes a apresentar no Parlamento.

Congregação do Sagrado Coração, Alemanha

Segue um trecho da famosa visão do Dr. Martin Luther King - a de um país unificado pelo amor e pelo espírito, sem os impedimentos das barreiras da cor ou da raça:

“…Eu tenho um Sonho: o de que os meus quatro filhos haverão de viver, um dia, numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele mas pelo conteúdo do seu carácter. É esta a nossa esperança. É esta a fé que tenho…E com esta fé, nós conseguiremos cortar, da montanha do desespero, uma pedra de Esperança”.

1.1.10 A Violência

Não estamos a exagerar quando dizemos que, actualmente, se vive numa cultura da violência. Na sua Encíclica “Evangelium Vitae”, o Papa João Paulo II enumerou alguns dos elementos daquela a que chamou “cultura da Morte”. No fundo, trata-se da mesma coisa, visto que toda e qualquer forma de violência é destruidora.

A violência pode ser pessoal, social ou global. Ela pode ser sistémica e estrutural. Pode ser política, económica, cultural e religiosa. Pode até ser institucional. Ela vive-se em muitas famílias e comunidades. E nós temos consciência das suas muitas causas e expressões.

Bob Kearns, um pároco da Congregação de São José, nos Estados Unidos, partilhou connosco a experiência que teve com um grupo de alunos do terceiro ano. Ao falar-lhes do quinto mandamento, perguntou: “Que tipos de violência se conhecem hoje”? Foi esta a resposta que veio dos lábios destas crianças de oito anos:

“Violação em série, pancadarias, facadas, tiroteios, envenenamentos, suicídios, rapto de crianças, atirar bombas, acender fogos, torturar animais, abusar de crianças, matar pessoas idosas, aborto, SIDA”.

E o Padre Kearns pergunta: “E que aconteceu àqueles tempos em que o grande problema era andar zangado com os meus irmãos e irmãs ou andar aos murros?”

Michael Crosby14, ao definir violência, afirma que ela é “qualquer uso de força causadora de ferimentos”. Nesta sua definição, ela conta com três elementos:

  • qualquer tipo de força
  • contra a vontade
  • causadora de ferimentos

A “força” e o “ferimento” podem ser físicos ou mentais, individuais ou de grupo, psicológicos ou sociológicos, concretos ou ideológicos, religiosos ou espirituais, etc. Ao meditarmos nesta definição, deveríamos dar mais importância ao elemento “força”

que causa ferimentos, do que às outras duas dimensões. Assim, centramo-nos na causa enquanto tratamos do impacto e do efeito.

Ora isto leva-nos a perguntar: quais são os diversos tipos de “forças” e “ferimentos” que operam neste mundo? Eis o que Thomas Merton, no seu livro Faith and Violence (Fé e Violência) tem para dizer:

“O verdadeiro problema moral da violência no século vinte está obscurecido por pressupostos arcaicos e míticos. Nós tendemos a calcular a violência em termos do que é individual, confuso, fisicamente perturbador e pessoalmente aterrador…Isso é razoável, mas tende a influenciar-nos demais. Leva-nos a pensar que o problema da violência se limita a esta muito pequena escala, e torna-nos incapazes de apreciar o problema muito maior da presença mais abstracta, mais global e mais organizada da violência a nível das massas e dos grupos. A violência de hoje é uma violência de “colarinho branco”, a da destruição sistematicamente organizada, burocrática e tecnológica do homem”.

Nós ainda temos a tendência para limitar a nossa compreensão da violência ao que é físico e individual, não a igualando às formas organizadas, burocráticas e sistémicas de violência que são responsáveis pela nossa actual cultura da morte.

Em concreto, a violência manifesta-se nas seguintes formas, no mundo de hoje15:

  • no trato que se dá aos pobres e aos marginalizados, às mulheres e às crianças, aos idosos e aos incapacitados;
  • na pesada carga de dívidas dos países mais pobres;
  • em programas de austeridade ou Programas de Adaptação Estrutural;
  • na economia do lucro;
  • em certas formas de consumismo;
  • no desemprego e no subemprego;
  • no acesso desigual à terra arável e a outros recursos essenciais;
  • no sistema monetário internacional actual;
  • na destruição do ambiente

Eis allguns exemplos de opção clara pela não violência, feita pelas Irmãs Franciscanas da Penitência e da Caridade Cristã:

“As Irmãs da nossa província detiveram-se intensamente sobre o tema da “não violência” durante este ano. Por ocasião da Visita aos conventos, todas as pulsões e reflexões em comum se centraram nesse assunto”.

Os debates foram em torno de problemas e aspectos diversos como estes:

“Como é que o comportamento violento e o comportamento não violento se manifestam na nossa vida diária? Será o comportamento não violento para com nós próprios, e prestar ouvidos à nossa verdade interior? Será a não violência uma expressão de tolerância? Será o respeito pela dignidade e crescimento das outras pessoas? A não violência - que é uma atitude Franciscana - é o princípio da subsidiaridade, um princípio estrutural em que a não violência se manifesta”.

Testemunho Pessoal16

Michael Crosby, OFM Cap.

Para interiorizar este material , sugiro algumas estratégias que me têm ajudado no esforço contínuo que tenho vindo a fazer para me tornar mais não violento:

  • Respeitar-me a mim mesmo por aquilo que sou, e aos outros pelo que são, desprendendo-me da necessidade que eu sinta de controlar os outros e, respeitosamente, não deixar que outros me controlem a mim.
  • Em todos os intercâmbios que possam incluir elementos de conflito, seguir esta quádrupla via: comparecer; prestar atenção; dizer a verdade tal como se vê; renunciar à necessidade de controlar os resultados.
  • Acautelar-me das várias maneiras como “ me pago do perdido” sempre que o meu poder, os meus haveres e o meu prestígio estejam em perigo. Que costumo fazer para os proteger e para guardar o meu “território”? Que é que me costuma fazer entrar na defensiva?
  • Acautelar-me dos meus medos e daquilo que faço, tanto consciente como inconscientemente quando eles aparecem. Procurar compreender como eles me podem impedir de “arriscar”.
  • Perguntar-me se guardo ressentimentos no coração a respeito de alguém. Na afirmativa, procurar a reconciliação pedindo perdão ou oferecendo arrependimento. Abrir-me aos outros quando eles procuram reconciliação comigo.
  • Mostrar gratidão e reconhecimento pelos pequenos actos de não violência; alegrar-me e mostrar satisfação em promover a paz.
  • Procurar tornar-me um místico/contemplativo na oração; ela alimentará e dará autenticidade aos desafios proféticos que a resistência pede.
  • Sabendo que toda a reconciliação deve estar baseada na justiça, procurar maneiras inovadoras de desafiar as instituições, os “ismos” e todas as ideologias que apoiam a injustiça. Não basta simplesmente denunciar: é preciso procurar alternativas.
  • Desenvolver formas de pensar que me tirem da centralização em mim mesmo e me coloquem numa solidariedade maior com as vítimas da violência, incluindo a própria terra.
  • Procurar viver segundo os seis princípios do Voto da Não Violência da Pax Christi (cfr. Apêndice A3.3); promovê-lo em toda a pregação que fizer.
  • Perguntar-me “Importo-me mesmo” com aqueles de que discordo, que desafio, e que me desafiam?
  • Ganhar consciência das origens da minha raiva quando ela tem tendências destruidoras (por exemplo, transferência, culpar os outros, arranjar bodes expiatórios).
  • Alimentar e deixar-me alimentar por comunidades de não violência e de resistência.
  • Individuar pelo menos uma causa pela qual esteja disposto a sacrificar-me; envolver-me numa campanha digna dessa causa.

1.1.11 Factores duma globalização manipulada

  •  As empresas transnacionais

Os agentes principais são as empresas transnacionais, também chamadas multinacionais, que não têm vínculos de lealdade para com ninguém, principalmente para nenhum estado-nação. A maior parte das nações industrializadas estão em dívida, mas as transnacionais não. Elas são os motores da globalização. Agora são os estados-nações e os políticos quem trabalha para elas.

  •  A Tecnologia da Comunicação

Os computadores são hoje a linguagem da vida moderna. A INTERNET é quem define a vida de muita gente. O capital viaja à velocidade do computador e, assim, torna-se “a única e verdadeira linguagem humana”. Nós próprios estamos obrigados a fazer parte da super-autoestrada das comunicações.

  • Os Poderosos de Bolso

Os ricos e os poderosos, na verdade não demonstram lealdade nenhuma aos seus países ou nações - só à nova comunidade global. As viagens a jacto, os telefones celulares e por satélite, os computadores e os santuários fiscais em terra alheia permitem que os ricos andem pelo mundo como por casa sua e não revelam fidelidade aos seus países de origem.

  • Os Meios de Comunicação

Quem é dono deles? Quem é que os administra? Eles têm preconceitos e por vezes são manipulados para servir os interesses dos que controlam o poder político e económico. Os média das nações ricas aceitam o plano das transnacionais e procuram convencer o resto do mundo de que ele é a única realidade para que vale a pena trabalhar, a única e verdadeira realidade humana, o sentido real do progresso.

  • O Fundamentalismo

Devido a uma certa insegurança subtil inerente ao individualismo e respectivos ícones, está a dar-se uma viragem à direita em termos de Religião e de Fundamentalismo. Em certos contextos, o fundamentalismo até se usa como arma contra o modernismo.

Segundo Felix Wilfred, a globalização parece estar a arrastar consigo o mundo inteiro. Na realidade, porém, ela deixa para trás porções cada vez maiores deste mundo no deserto da miséria. Ela arranca pela raiz muita gente com promessas de abundância, mas, na verdade, suga-os sem piedade e deixa-os secar e morrer. Os pobres e os fracos da nossa sociedade estão cada vez mais privados da segurança que as suas ocupações simples tradicionais lhes davam, por humildes que fossem. Eles ficam incapazes de concorrer contra um sistema cuja essência assenta em deixar para trás muitas pessoas à medida que ele avança. Foi o sector agrícola que sofreu o maior choque com a globalização…A globalização significa, para eles, uma real marginalização…

É fácil arrastar povos e nações para uma economia global. Pouco a pouco, isto leva à perda dos aspectos mais nobres das suas culturas. Todos eles, afinal, recebem uma pseudo-cultura global que, no fundo, presta serviço aos direitos adquiridos dos poderosos17.

1.2. INJUSTIÇAS CONTRA O AMBIENTE

1.2.1 A Integridade da criação

“A Terra é a minha mãe. Tal como uma mãe humana, ela dá-nos protecção, prazer e toma conta das nossas necessiddes - económicas, sociais e religiosas. Nós temos relações humanas com a terra: de mãe, de irmã, de filho. Quando nos tiram a terra ou quando a destróem, nós sentimo-nos feridos, porque nós pertencemos à terra e fazemos parte dela”18

Diácono Djiniyini Goudarra

  • Há uma inter-relação íntima entre as injustiças sociais e as injustiças ambientais.
  • As crescentes injustiças ambientais são consequência das injustiças sociais. Aquelas não podem ser resolvidas sem que estas o sejam também.
  • Os modelos actuais de produção e de consumo são as principais causas da degradação ambiental.

FACTOS E DADOS SOBRE AS INJUSTIÇAS AMBIENTAIS

1.2.2 Os Oceanos do Mundo19

  • regulam o clima terrestre;
  • fornecem 100 milhões de toneladas de alimento ao ano, sob a forma de peixe;
  • têm abundância de sal e minerais (magnésio, níquel e cobre);
  • podem fornecer água fresca por destilação;
  • mas estão agora a sofrer a poluição…
  • dos materiais tóxicos industriais
  • de esgotos e lixo provenientes das áreas urbanas;
  • de pesticidas, adubos, estrume animal e outros, devido aos métodos modernos de agricultura e cultivação.

1.2.3 A Poluição da Terra e do Ar

  • deve-se à queima de combustíveis fósseis para fins industriais;
  • deve-se às emissões de combustão automóvel;
  • deve-se ao crescente número de máquinas de refrigeração e condicionamento de ar;
  • deve-se ao despejo de lixos tóxicos.

1.2.4 A Desertificação e a Erosão do Solo

  • A desertificação tem consequências ecológicas, sociais, económicas e humanas.
  • É o processo pelo qual a terra arável perde as suas árvores, arbustos e erva. A camada fértil fica, então, exposta ao vento e às variações climáticas, transformando-se em areia.
  • Todos os anos, cerca de 60.000 quilómetros quadrados de terra fértil ficam transformados em deserto. Mais 200.000 quilómetros quadrados de terreno cultivável e de pastagens são destruídos ou ficam gravemente depauperados. Com o tempo, estas áreas ficam tão expostas aos elementos que o deserto acaba por engoli-las.
  • A desertificação está a acontecer sobretudo nas terras ao Sul do Sahara: mas também em certas partes da Ásia e nas orlas costeiras dos Estados Unidos e da América Latina.

1.2.5 A Desarborização

  • A floresta é a morada de muita gente, animais, aves e insectos. Ela fornece-lhes alimento, remédios, combustível, carvão, madeira e papel.
  • A vegetação mantém a vida humana e animal de muitos modos que são essenciais. Proteger a cobertura floral é a maneira mais importante de impedir a desarborização.
  • As plantas verdes absorvem o anidrido carbónico e produzem oxigénio. Se houver menos árvores, menos anidrido carbónico será absorvido; uma maior quantidade de anidrido carbónico faz piorar o efeito de estufa.
  • As florestas pluviais tropicais representam ¾ das florestas existentes nos trópicos. Essas florestas contêm 60% das espécies animais e florais do mundo como um todo.

As florestas pluviais estão a desaparecer devido a:

  • actividades de mineração
  • indústria de madeiras
  • construção de estradas
  • criação de gado (para exportar carne para o Norte)
  • posse da terra.
  • Tanto os países ricos como os pobres consomem árvores em proporções basicamente idênticas: os países pobres usam-nas por uma questão de sobrevivência, enquanto que os países ricos usam-nas principalmente por razões de luxo (para construção - à razão de 75%, no caso dos países ricos); e para fabrico de papel - à razão de 87,5% também pelos países ricos).
  • Já mais de metade das florestas tropicais do mundo desapareceram desde 1950. Estudos feitos recentemente revelam que, por cada ano que passa, destrói-se uma área de floresta tropical do tamanho da Nova Zelândia.

Consequências da destruição das florestas pluviais:

  • A desarborização é a causa principal da eliminação de:
  • povos indígenas que habitam nas florestas,
  • espécies naturais: animais, aves, plantas - inclusive 7000 elementos medicinais
  • uma espécie desaparece cada 12 minutos que passam. (Deve haver cerca de 30 milhões de espécies, das quais conhecemos apenas 1.400.000);
  • Graves alterações climáticas, devido à destruição das chamadas “pias de anidrido carbónico”.

Consequências da Alteração Climática Acelerada:

  • Torna os padrões climáticos cada vez mais inconstantes e difíceis de prever. Secas, temporais, inundações e furacões podem tornar-se mais frequentes e mais severos do que anteriormente. O gelo, a neve e os glaciares diminuirão.
  • Como o aquecimento da atmosfera também leva a um aquecimento maior da temperatura do mar, a sua alteração levará ao aumento do nível das águas dos oceanos.
  • Os efeitos deste fenómeno sobre a agricultura serão irregulares mas substanciais. Algumas áreas importantes de cultivo desaparecerão. A desarborização aumentará.
  • As alterações hidrológicas causarão rupturas
  • As condições climáticas assim alteradas farão pressão sobre as florestas, os prados e outros ecossistemas.

Os efeitos das alterações climáticas aceleradas
agravarão as desigualdades sociais
dentro dos vários países e
dentro de cada país.

1.2.6 O Efeito de Estufa

  • A combustão de carvão, óleo e gasolina,
  • A libertação de gases químicos industriais,
  • As queimadas em florestas,
  • A fermentação anaeróbica…

…causam o aumento do anidrido carbónico e outros gases na atmosfera. Ora isto reduz a irradiação do calor para o espaço. O calor fica, então, retido, como acontece numa estufa - e a terra aquece.

1.2.7 Esgotamento da camada de ozono

  • A libertação de clorofluorcarbonetos para a atmosfera está a reduzir a camada de ozono que protege a terra contra raios ultravioletas: já diminuiu entre 4 e 8% durante os últimos 10 anos.

Efeitos prejudiciais:

  • afectação do sistema imune
  • aumento do cancro da pele
  • mais doenças dos olhos
  • menor produção de madeiras
  • menor produção de culturas
  • perturbações no sistema oceânico
  • degradação causada por tintas e plásticos

1.2.8 A Ligação entre Injustiças Sociais e Injustiças Ambientais

  • Um bilião de pessoas adoece e 2 milhões acabam por morrer devido ao consumo e à lavagem - com água poluída;
  • No ano 2000, dois biliões e meio de pessoas já terão passado a consumir árvores a um ritmo maior que o da regeneração das mesmas;
  • 20% dos ricos consomem 85% das energias não renováveis;
  • As indústrias continuam a produzir 2 biliões e meio de toneladas de resíduos tóxicos por ano - e a desfazer-se deles nos países mais pobres;
  • 17 das principais variedades de pesca já atingiram ou até ultrapassaram os limites da sustentabilidade: 9 já estão em declínio grave;
  • As emissões provindas dos combustíveis fósseis já aumentaram quase 400% desde 1950.

1.2.9 Exemplos de Compromisso com o Ambiente

Uma história de êxito dum grupo ecológico

Marina Silva de Souza foi eleita para o Senado Federal em 1994 e já atingiu o nível mais elevado de qualquer mulher brasileira. Mas ela nunca esqueceu as suas origens. Com mais dez irmãos duma pobre família de extractores de látex da Amazónia, ela passou os seus anos mais tenros a caçar, pescar e produzir borracha.

Em 1960, juntou-se a Chico Mendes para organizar manifestações pacíficas contra a desarborização da Amazónia e contra a expulsão das famílias extractoras de látex, que dependiam da floresta pluvial para viver. Encontraram muita resistência às mãos dos ricos fazendeiros e criadores de gado que andavam a abater a floresta com grande rapidez. Dizia ela: “Nós até duvidávamos de que alguém estivesse a prestar-nos atenção”. Mas, afinal, foram mesmo ouvidos, e a cruzada dos extractores de látex tornou-se uma inspiração para grupos ecológicos de base em todo o mundo. Desde os anos 80 e depois do assassínio de Mendes Silva, ela continuou a levar por diante a sua luta, concentrando os seus esforços na formação de reservas de floresta pluvial consagradas a actividades agrícolas não destruidoras, tais como extracção de látex e recolha de noz brasileira. Actualmente, existem 7.700 quilómetros quadrados no seu Estado, o Estado do Acre, reservados para estas actividades que são dirigidas pelas comunidades da floresta. “Se eu consigo ter um golpe de vista maior que os outros, diz ela, é porque estou apoiada por ombros de gigantes - os extractores de látex, os Índios e os cientistas”20

No seu livro The Fire in these Ashes (O Lume Nestas Cinzas), Joan Chittister escreve que a nossa maior necessidade, hoje, é ter uma ecologia de vida, justiça e paz, para que o planeta possa sobreviver e para que todos os seus habitantes possam ter uma vida digna.21 Para que o planeta possa sobreviver e as pessoas possam levar vidas dignas, é preciso haver uma transformação nos sistemas económicos, nos padrões de consumo e nos valores que estão na base do estilo de vida dos ricos. As exigências deste estilo de vida estão a empobrecer os pobres e a matar a terra. Segundo Sean McDonagh “Nós estamos a causar alterações biológicas e geológicas de grande magnitude e só agora estamos a começar a acordar para as consequências da nossa maneira de agir”. 22

É exactamente a magnitude destas alterações que está a levar as pessoas à depressão, à impotência e à incerteza do que fazer. Mas o papel daqueles que se encontram comprometidos com a Justiça Cristã para fazerem paz e para cuidarem da terra é muito claro. Trata-se dum papel essencialmente profético. Estruturas inviáveis exigem crítica; a indústria tem que ser desafiada, e as consequências da prática consumista devem ser postas em relevo. Estes tempos não são feitos para os tíbios. São para as pessoas com imaginação: há novas teologias a caminho; as liturgias que nascem da criação estão a avançar pelas igrejas adentro; nos lugares menos esperados, aparecem respostas inovadoras para as situações presentes. Há muito a fazer. Wanagri Maathai, célebre e corajosa figura do movimento Kenyan Green Belt (Cintura Verde do Quénia) e incorrigível plantadora de árvores incita-nos à acção:

“Ninguém pode chegar e logo dizer que vamos impedir a desertificação ou a desarborização sem mais nem menos. Não se trata de um só problema, que requeira uma só resposta: trata-se dum cozinhado complexo de muitos tipos de problemas que jogam uns com os outros e estão entrelaçados. E quando nós procuramos resolver estes problemas, eles nunca se resolvem em comícios de políticos, escrevendo lindos documentos. A final de contas, os problemas só serão resolvidos pela acção, onde quer que nós, enquanto indivíduos, estejamos. É por isso que eu gostaria de pôr em relevo o conceito de acção local e pensamento global. Afinal, é cada um de nós que deve tomar a decisão de actuar; já a conversa, os documentos…vão e vêm. E isso tem vindo a acontecer durante muito tempo”.

Os problemas relacionados com a protecção do ambiente podem ser tratados de muitas maneiras: através da análise estrutural, através da colaboração, através da actuação a nível local ou por combinação destes três. A análise estrutural pode ajudar a identificar quais os grupos de interesses que estão a tirar partido da poluição industrial. Dias de limpeza, actividades da Greenpeace, actividades do World Wildlife Fund poderão pôr-nos em contacto com uma certa rede e com informações pertinentes, perícia e solidariedade de grupos. A actuação local e em casa é precisamente aquilo que mantém as nossas vidas ambientalmente “reais” e nos leva da teoria à prática. (No Apêndice 2, há uma lista de sugestões práticas para servirem de resposta aos desafios ecológicos do dia a dia).

Abaixo, segue um excerto dum testemunho dado pelas Missionárias Franciscanas de Maria, nas Filipinas:

Ética Ecológica para a Transformação Pessoal e Social

  1. A. Justiça Para os Nossos Dias: Suficiência Sustentável para Todos (SAPAT)
    • SAPAT é um termo filipino para “suficiente”, “bastante”.
    • Os ricos devem viver simplesmente, para que os pobres possam simplesmente viver.
    • A aceitação e a adopção de SAPAT como um modo de vida, como uma maneira de viver em sociedade, exige uma maneira verdadeiramente alternativa de encarar o mundo e de nele viver, uma maneira que deve revelar-se em vivo contraste com a cultura predominante corrente.
  2. B. Princípios de SAPAT
    • Princípio Primeiro: Basta de destruição do ambiente.
    • Princípio Segundo: Colha da natureza apenas o suficiente.
    • Princípio Terceiro : Coma e compre apenas o suficiente e o necessário.
    • Princípio Quarto : Cada um deve ter o suficiente para manter uma vida sadia e digna.

Ao longo dos anos, foram dados passos significativos para a protecção do ambiente nos lugares onde as nossas Irmãs têm trabalhado. No decurso do seu protesto contra a exploração ilegal de madeiras na sua zona, os Mangyans e as Irmãs foram vexadas e ameaçadas. Este estado de coisas tornou-se crítico quando um dos chefes Mangyan foi esfaqueado.

As Irmãs Combonianas fizeram a seguinte opção:

Dar início à campanha do “suficiente” estabelecendo limites para as nossas exigências pessoais e comunitárias, e encontrando satisfação no que é apenas necessário…

Uma Parábola para Reflexão e para Debate:

A MÃE23

Era uma vez…uma mãe: muito carinhosa, fecunda e providente. Na sua imensa fertilidade, ela deu à luz, alegremente, centenas, até milhares de filhos. Chamava-se Terra; e os seus filhos chamavam-se “homens” e “mulheres”.

Amorosa e prodigamente, ela deliciava-os com a fresca e casta água para beber, frutas carnudas e sumarentas para comer, relva macia, verde e fresca para nela se estenderem, por dias e noites, meses e estações.

Quando os homens e as mulheres, que eram os filhos da Terra Mãe, eram pequenos, eles amavam a sua mãe de todo o coração. Acariciavam-na dia e noite com mãos e pés nus.

Tão agradecidos se mostravam à Terra Mãe que chegaram a organizar grandes festas para introduzir e celebrar as estações, a colheita das culturas, o princípio e o fim das chuvas, do Verão e do Inverno.

Na sua simplicidade de crianças, até lhe rezavam e lhe prestavam culto nos seus campos, nas suas casas e nos seus pequenos templos.

À medida que os filhos da Terra Mãe foram crescendo e recebendo saber e educação, eles foram-se tornando também cada vez mais insensíveis para com ela. Por fim, esqueceram-se de todos os favores que ela lhes fizera, e também de todo o seu amor e generosidade. Todos os festivais e celebrações acabaram. As suas orações ficaram-lhes presas na garganta. O culto da mãe também foi esquecido. Até começaram a olhar com desprezo para as suas orações anteriores, as suas adorações, festivais e celebrações. E à medida que se tornaram mais “civilizados”, aprenderam a arrancar do seu seio, com espertezas e com a força, os tesouros que ela tinha escondido com amor para os homens e as mulheres ainda por nascer!

Por fim, quando se desenvolveram por completo, mudaram de atitude para com a sua benigna mãe. Foi então que a Terra Mãe apareceu a seus perversos olhos, como se fosse uma conquistadora, sua rival, um animal feroz que era preciso apanhar em armadilha e subjugar, uma pobretona que era preciso depenar. E assim, os seus filhos fizeram brutal canibalismo dela, amputaram-na, arrancaram-lhe o seu manto de beleza e poluíram-na. E mesmo assim, por todo o mundo, os intelectuais, os filósofos e os grandes pensadores continuavam a repetir: “ Finalmente que conquistámos a terra. Nós agora conhecemos os segredos da natureza. Libertámos a humanidade do antigo obscurantismo, do medo dos fenómenos naturais, e das superstições. Agora, sim, que somos ricos e prósperos. Espera-nos um grande futuro. Já nem precisamos de rezar ou fazer adoração a ninguém !”.

Mas a minha pergunta é: “Isso é verdade? Podemos mesmo viver sem a nossa Mãe?”

 

PERGUNTAS:

  1. Quem são os filhos deste mundo? Trata-se apenas duma figura literária ou, antes, duma realidade concreta? Explique.
  2. Que sentimentos tinham os “primitivos” para com a terra e a natureza? Como é que os exprimiam?
  3. Os festivais, as celebrações, os rituais e os mitos dos “primitivos” tinham valor? Que valor?
  4. Agora que acabaram, ganhámos ou perdemos com isso? Porquê?
  5. Que sentimentos têm os seres humanos modernos para com a terra? Que é a terra, para eles?
  6. Porque é que as suas atitudes para com a terra mudaram tão radicalmente?
  7. Que é que os seres humanos modernos fazem à terra, hoje em dia?
  8. Poderá a terra aguentar por mais tempo este ataque, este saque, esta violação dos seus recursos? Porquê? Quais serão as consequências?
  9. Como é que os seres humanos, “racionais”, deveriam usar (mas não abusar) das riquezas e dos recursos da terra para impedir essas catastróficas consequências?

PARÁBOLA
para reflexão pessoal

Houve uma vez uma turma
cujos alunos discordavam - da professora, é claro -
Por terem de se importar
com interdependências, globais problemas,
ou com o que outros pensavam, faziam e até sentiam.

A professora disse então que tinha tido um sonho
em que vira um dos alunos, já na casa dos 50…
Zangado ele estava e dizia…
“Porque tive eu de aprender do meu país o passado
e o governo em pormenor
mas do mundo pouco ou nada?”

Zangado ele estava porque
ninguém lhe dissera que agora
tinha que encarar dia a dia
problemas de interdependência
de paz, segurança, e até de vida com qualidade,
alimento e inflação, falta de naturais recursos.

O aluno zangado vira
que vítima e cúmplice fora...
“Porque não fui avisado
um pouco melhor educado?
E não me falaram os ‘stores
dos problemas deste globo
ou ajudaram a entender
que interdependente sou, de raça?”

Cresceu a raiva, e ele gritou…
“Fizeram crescer minhas mãos
com máquinas, roboterias,
meus olhos com telescópios, e até com microscópios,
os meus ouvidos com rádios, sonares e telefones,
com computadores meus miolos…
mas não me ajudaram a alargar
o meu coração, o amor
ou o int’resse sequer, p’la grande família humana.
Obrigado, stor, então:
por só me ter dado meio pão!”

Rye Kinghorn,
Citado por Robert Muller: The Birth of a Global Civilisation
(O Nascimento duma Civilização Global)

1.1.10 Comentário Final

Como Gente Consagrada
e promotores da Justiça, Paz e Integridade da Criação,
importa que levemos
esta “nova ordem global” a sério.

Como Cristãos empenhados
na edificação do Reino
é nosso dever procurar o Plano de Deus para o mundo.
E isto remete já para a leitura da Escritura
(Secção II).

É preciso que os promotores/animadores da JPIC
examinem problemas de justiça com acuidade
antes de passarem à acção para lhes dar solução.
É preciso que assim façam
porque precisam de entender os problemas com que lidam.
É preciso ter método para examinar e analisar os problemas de justiça
porque há perigo real
de tais problemas se agravarem
se os operários da justiça
não tiverem noção plena
da raiz dos seus problemas.
É o que devemos fazer
pela Análise Social
(Secção III).


2 Temos que repensar, em certa medida, o nosso vocabulário, inclusive termos como “primeiro mundo”, “terceiro mundo”, etc. Com base na economia, o único mundo criado por Deus ficou dividido em quatro - e , até em cinco mundos! O termo “mundo dos dois terços” está a substituir, pouco a pouco, o termo “terceiro mundo”, visto que os pobres, neste mundo, são hoje mais ou menos dois terços da população mundial.

3 O Movimento Mundial dos Operários Cristãos lançou um Plano de Quatro Anos (1996-2000) para promover a dignidade humana, para reanimar a esperança das pessoas, e para criar novas formas de solidariedade. O Plano de Pormenor foi incluído no seu boletim «INFOR», n.º 154 ; (Bruxelles, Julho-Agosto de 1996).

4 A palavra “billion”, no Reino Unido e na Alemanha, significa um milhão de milhões ( 1.000.000.000.000 ); na França e nos Estados Unidos, significa mil milhões (1.000.000.000). A palavra “trillion”, no Reino Unido, significa um bilião de biliões (1.000.000.000.000.000.000); na França e nos Estados Unidos significa um milhão de milhões (1.000.000.000.000).

5 O Relatório sobre o Desenvolvimento Humano é uma publicação anual do UNDP (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

6 FELIX WILFRED, No Salvation Outside Globalization, (Não há salvação à margem da Globalização), in SEDOS, Roma, 1996/305

7 Da intervenção de Kinda Gray na Conferência Habitat e Instalações Sustentáveis, «Justice and Peace Magazine», Escócia, Outubro de 1996

8 NICOLETTA DENTICO, “Minas Anti-pessoal: sentinelas silenciosas da morte”. Intervenção feita num Encontro sobre a Educação Pública organizado pela JPIC, Janeiro de 1995.

9 Development and Environment Kit, (Dossier do Desenvolvimento e do Ambiente), Norway, 1991.

10 AMECEA (Documentation Service, Quénia, n.º 462, Dezembro de 1996), pág. 5.

11 Aruna Gnanadason, “Para uma Teologia Eco-Feminista”, (CCA News, Maio-Junho de 1992).

12 Resource Kit on Uprooted People (Dossier de Recursos sobre os Desenraizados), Austrália, pág. 18.

13 Ibidem, pp. 21, 24-27.

14 Michael Crosby, OFM Cap., “Coming to Terms with Violence” (Encarar a Violência), The CMSM Shalom Strategy, EUA, 1996, pp. 18-20

15 Terry Miller e Marie Dennis, no seu artigo “The Global Face of Violence” (A Face Global da Violência) em Shalom Strategy, explicam os vários tipos de violência que estão em manifestação na sociedade actual; pp. 164-172.

16 Ibidem, p. 36-37

17 Felix Wilfred, “No Salvation Outside Globalisation” (Não Há Salvação Fora da Globalização), in SEDOS, Roma, 96/305.

18 Recognition: The Way Forward, An Issues Paper from the Australian Catholic Social Justice Council, ( Reconhecimento: O Caminho à Nossa Frente; Um Estudo de Problemas pelo Conselho Católico Australiano de Justiça Social), 1993, p. 20.

19 Os dados e os valores que seguem foram tirados de Environment and Development Kit (Dossier Ambiente e Desenvolvimento); Visuell Inform, Noruega, 1991.

20 “Grass Roots Heroes”, (Heróis das Bases), (Times, 29 de Abril de 1996).

21 Sheed and Ward, Kansas City, 1995, p.102.

22 Passion for the Earth (A Paixão pela Terra), Geoffrey Chapman, London, 1994, p.64.

23 Peter Ribes, S.J., Parables and Fables for Modern Man (Parábolas e Fábulas para o Homem de Hoje), vol.4, St. Paul´s, Bombay, 1991, p.70