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Manual para animadores da justiça, da paz
e da integridade da criação

SEGUNDA PARTE
FUNDAMENTOS BÍBLICOS PARA A JUSTIÇA, A PAZ E A INTEGRIDADE DA CRIAÇÃO

2.1. INTRODUÇÃO

A mensagem Bíblica é fundamentalmente
uma mensagem de VIDA, de ESPERANÇA, de JUSTIÇA e de PAZ.

É necessário fazer uma releitura ou até uma reinterpretação da Bíblia
para se poder descobrir o tema bíblico da
Justiça como Relacionamento Correcto,
um tema que perpassa como fio condutor por toda a Bíblia.

Na Bíblia, é Deus quem toma a iniciativa, continuamente,
de se revelar como Amor e Compaixão
em virtude do seu desejo de estabelecer relacionamentos profundos:

  • entre si próprio e as suas criaturas;
  • entre os povos;
  • entre o povo e o resto da criação

É esta representação de Deus que deve substituir outras representações incorrectas de Deus que possamos ter adquirido numa interpretação incompleta da Bíblia.

A investigação e os estudos bíblicos continuam a fazer progresso e, entretanto, estão a fazer-se novas descobertas que contribuem para uma nova noção de Deus e de Jesus. Trata-se, assim, de noções renovadas que nos ajudam a aprofundar os fundamentos bíblicos da Justiça, da Paz e da Integridade da Criação (JPIC).

Vale a pena lembrar que o Papa Leão XIII, o primeiro a escrever uma encíclica de cunho social (Rerum Novarum), também foi o primeiro a escrever uma encíclica sobre a Sagrada Escritura (Providentissimus Deus). Este facto poderia permitir a confirmação duma relação íntima entre a Bíblia e a Justiça Social.

Neste contexto, talvez valha a pena dizer algumas palavras sobre a reinterpretação da Bíblia na Igreja, que é título dum documento publicado pela Comissão Bíblica Pontifícia em 1993. Os quatro trechos que seguem e foram tirados desse documento respondem à pergunta: porque reinterpretar a Bíblia hoje?

  • “Este estudo nunca estará completo; cada época tem de procurar compreender os livros sagrados à sua maneira, outra vez…
  • “O campo metodológico do trabalho exegético tem-se expandido numa medida que ninguém poderia ter previsto há trinta anos…
  • “A mensagem da Bíblia tem raízes profundas na história. Daí que as escrituras sagradas não possam lograr uma interpretação correcta sem a análise das circunstâncias históricas que lhes deram forma. A compreensão ‘diacrónica’ (o desenvolvimento dos textos ou tradições com o passar do tempo) e a compreensão ‘sincrónica’ (a que tem a ver com a linguagem, a composição, a estrutura da narrativa e o poder de persuasão) são ambas necessárias…
  • “ Um dos resultados deste tipo de investigação foi o de ter demonstrado mais claramente que a tradição que ficou gravada no Novo Testamento teve origem, e encontrou a sua forma básica, no seio da comunidade cristã, ou Igreja nascente, tendo passado da pregação do próprio Cristo àquela que proclamou que Jesus é o Cristo”.

Citações tiradas do documento
“A Interpretação da Bíblia na Igreja”
publicado pela Comissão Bíblica Pontifícia, 1993.

Foi à luz desta evolução no estudo da Bíblia que nós evoluímos na nossa compreensão do conceito bíblico de Justiça enquanto relacionamentos correctos. De facto, a procura da justiça consiste no esforço por edificar relacionamentos construtivos e libertadores a todos os níveis…

2.1.1 Os Relacionamentos na Bíblia

2.1.2 O Relacionamento de Deus com os Seres Humanos

2.1.2.1 Nas Escrituras Hebraicas (Antigo Testamento)24

Êx 34:5-7 Um Deus, compassivo e benévolo, vagaroso na ira e generoso no amor, na fidelidade e no perdão…
Jer 31:3: Amei-te com amor eterno…a minha fidelidade perdura…
Jer 29:11-14: Eu sei que planos tenho para ti…planos que são para o teu bem, que te darão um futuro e esperança…
Is 49:14-16: Como poderia uma mulher esquecer-se do seu filho?…Eu esculpi-te na palma da minha mão.
Os 11:1-9: Fui eu quem ensinou Efraim a andar…eu curei-os…eu governei-os com compaixão e amor…eu dei-lhes de comer.
Salmos: 9, 12, 22, 35, 69, 72, 82, 103, 107, 130, etc.

2.1.2.2 No Novo Testamento

Há três parábolas no Novo Testamento que nos indicam claramente o relacionamento que Deus tem com o seu povo, um relacionamento que está baseado numa nova ordem global de Justiça, tal como ela foi concebida por Jesus.

  1. Em Mt 18:21-35: A Parábola do Senhor Misericordioso: a misericórdia do Senhor é extraordinária, porque Ele não usa medidas humanas. Ele revela  compaixão para com o servo que implora misericórdia e Ele perdoa-lhe a dívida por completo.
  2. Em Mt 20:1-16: A Parábola do Patrão Compassivo: o dono da vinha preocupa-se com os desempregados. Nela se diz que, várias vezes no mesmo dia, ele foi à procura deles, convidando-os para irem trabalhar na sua vinha. A sua preocupação não era que o trabalho fosse feito; era que os trabalhadores recebessem uma jorna suficiente para assegurar uma vida digna às suas famílias A justiça de Deus realiza-se segundo as necessidades de cada um.
  3. Em Lc 15:11-32: A Parábola do Pai Compreensivo: Ele teve uma compreensão toda especial para com o seu filho que queria fazer uma aventura. Ao concordar com isso, ele bem sabia quanto estava a arriscar, sendo pai. Quando o seu filho finalmente voltou a casa, o pai não pediu explicações; até “despejou” amor e compaixão sobre ele. Mas quando o filho mais velho reagiu mal à atitude do pai para com o irmão mais novo, o pai explicou-lhe carinhosamente que a única coisa importante era que o irmão mais novo tinha sido “encontrado” para uma nova vida.

As três parábolas referidas reflectem o conceito bíblico de justiça: o dos relacionamentos correctos - de misericórdia, compaixão, compreensão e perdão.

Deus está do lado dos pobres porque eles são pobres e objectos de discriminação. É assim que Deus é; e é disso que trata a Sua aliança - um pacto com os pobres para que possam viver como irmãos e irmãs numa comunidade de fé igualitária. Deus não “idealiza” os pobres. Ele não está contra os ricos ou contra os poderosos: Ele só está contra as estruturas das sociedades que colocam os ricos e os poderosos em oposição aos pobres e aos desalojados deste mundo. Deus é o salvador de todos25.

2.1.3 Relacionamento entre os Seres Humanos

2.1.3.1 As Alianças: Sinaítica e Levítica

Êx 22:20-21
Dt 10:18-19
Dt 24:17-24
Tratamento justo dos órfãos, das viúvas e dos forasteiros
Êx 22:24-26
Êx 23: 3-11
Lev 15:4ss
Dt 24: 12-15
Tratamento justo dos pobres e dos necessitados
Êx 22:24 Não cobrar juros
Êx 23: 6 Justiça para com os pobres
Lev 19:35-36 Justo juízo a respeito de outrem
Dt 25:13-16 Não enganar os outros
Êx 23: 8 Não aceitar subornos
Ex 23: 1 Não espalhar boatos falsos

2.1.3.2 O Relacionamento de Jesus com as Pessoas

Mc 1,41: Um leproso veio ter com Ele…Jesus ficou cheio de compaixão
Mc 2,23: Num dia de Sábado, os seus discípulos tinham fome…Ele deixou-os “transgredir o Sábado” para que pudessem comer… Relativizou a Lei: a compaixão é mais importante.
Mc 3,1ss: Para salvar vidas, promover a vida é mais importante que a Lei
Mc 8,2: “Tenho compaixão desta multidão…” (Alimentação dos 4000)
Mc 12,28-34: Amarás o Senhor teu Deus…amarás o teu próximo como a ti mesmo…amar o próximo vale muito mais do que todas as ofertas e sacrifícios cruentos”.
Mc 2:15: Jesus não exclui ninguém.
Mt 9:27-28: Compaixão para com o cego.
Mt 18:21; Lc 17:4: Perdão das ofensas dos outros
Lc 6: 6-11: Cura dos doentes.
Lc 7:36-50; Jo 4:7-39: Atitude para com as mulheres marginalizadas.
Lc 7:9: Apreço pela fé dos não Judeus
Jn 8:1-11: Compaixão para com os “pecadores”

O relacionamento de Jesus com as pessoas ultrapassa todas as barreiras:26

  • As barreiras de raça - os Samaritanos
  • As barreiras de género - vai sempre reconhecendo as mulheres como pessoas e como parceiras de missão
  • As barreiras da cultura - aceita a cultura mista e híbrida da Galileia e da Decápole
  • As barreiras da religião - oposição à estrutura religiosa formal do Templo de Jerusalém
  • As barreiras da idade - recebe as crianças
  • As barreiras dos chamados “marginais” - aceitando marginais políticos bem como cobradores profissionais de impostos, marginais sociais como os leprosos, e marginais religiosos como as prostitutas.27

A vida e a missão de Jesus foram uma ameaça constante ao “status quo”:

Numa sociedade que tinha sido colonizada do ponto de vista político, que era patriarcal do ponto de vista social, e que era conservadora do ponto de vista religioso, Jesus acabou por introduzir um tipo de relacionamento alternativo com Deus e com as pessoas:

  • Jesus “quebra” o Sábado sempre que a necessidade humana o exige: vejam-se as controvérsias sobre o Sábado em Mc 2:23-28; 3:1-6; Lc 13:10-17; Jo 5:1-18; 9:1-34.
  • Jesus coloca as mulheres no lugar que lhes é devido: Lc 8:2; Jo 4:4-42; Lc 7:36-50; Mc 3:11; Mc 3:11; Mc 15:4-41, 47; 16:1-8.
  • Jesus atribuiu importância à fraternidade da mesa universal, rompendo com tabus sociais, culturais, religiosos, políticos e de género.
  • A comunidade de Jesus foi edificada sobre: as “duas palavras” - Mt 22:36-40; e sobre as oito bem-aventuranças - Mt 5:1-12.
  • O “evangelho espiritual” e o “evangelho material” eram, para Jesus, um único evangelho.

2.1..4 O Relacionamento dos Seres Humanos com o Ambiente

2.1.4.1 Relacionamento com a terra:

Êx. 23:10-11
Lev 25: 1-7
Dar descanso à terra cada sete anos

2.1.4.2 Relacionamento correcto com os animais:

Lev 25:7
Êx 23: 4-5
Êx 12:12
Respeito e Compaixão para com os animais

2.1.5 Os Livros Sapienciais

Em certos ambientes hebraicos floresceu o cultivo da sabedoria, uma atitude e maneira de encarar a vida que dava realce ao relacionamento entre Deus, os seres humanos e o resto da criação. A natureza é considerada muito importante nos livros sapienciais.

Provérbios (445 A.C.) 6: 16-19
Job (430 A. C.) 42: 1-6
Eclesiastes (Qoheleth) (250 A.C.) 11: 5
Eclesiástico (Ben Sirach) (190 A.C.) 10: 6-7
Sabedoria (150 A. C.) 7: 22-30
Salmos: (As glórias da Criação de Deus) 103

2.1.6 Os Profetas

Os Profetas devem ser perspectivados e apreciados do ponto de vista da história judaica tal como ela é relatada nas Escrituras Hebraicas.

Eles eram “chamados” e “enviados”: tinham papel central na história de Israel e no desenvolvimento do pensamento e da tradição israelitas.

A justiça social era central à sua mensagem:

Is 1:10-17
Jer 7:1-7
Am 5:11-15; 21-24
Mic 6:1-8
O culto no Templo, a celebração litúrgica, as orações e os holocaustos não têm valor se as suas vidas não revelarem verdadeiro amor e justiça.

 O papel dos Profetas poderia ficar resumido como segue:

  • Eles perscrutavam os Sinais dos Tempos a nível económico, político e religioso
  • Dirigiam a sua mensagem a todos: (1) à liderança política, uma vez que, no seu contexto, os Reis, pelo menos, professavam a sua fé em Javé; (2) à liderança religiosa; (3) ao “povo escolhido”.
  • Eles tanto anunciavam como denunciavam e até admoestavam: antes do exílio, a sua mensagem era principalmente de aviso; durante o exílio, ela era de esperança; depois do exílio, era de fidelidade.

A mensagem dos profetas reflectia: (1) a sua preocupação com a idolatria e o sincretismo dos israelitas; (2) a sua preocupação de o “povo eleito” querer ser como os seus “vizinhos”, procurando absorver as suas formas de culto e de comportamento; (3) a sua percepção da tendência dos israelitas para considerarem a sua “eleição” mais como um privilégio do que como uma responsabilidade, levando-os a criar um espírito nacionalista que considerava os outros como “inferiores”.

Assuntos para Reflexão e Debate

A ideia que as Escrituras Hebraicas nos dão dos profetas é a de uma pessoa…

  • Que tem vistas largas
  • Que tem um relacionamento forte com Deus
  • Que identificou claramente a sua Vocação e a sua Missão
  • Que experiencia uma conversão
  • Que age com coragem por se sentir “seduzido” por Deus.

Serias capaz de indicar os nomes de alguns profetas do contexto histórico actual que passaram por experiências semelhantes?

Como te têm inspirado?

2.1.7 O Martírio Social dos Nossos Dias

O martírio voltou a fazer parte da vida da Igreja de hoje com repetições impressionantes. Se o Evangelho for vivido a sério, ele trará consigo a opressão. São Paulo avisa-nos sobre poderes e principados em actuação neste mundo e na sua história. Quem trabalha para o Reino de Deus encontrará oposição e até a morte. A nossa história recente registou exemplos de vidas que foram entregues para bem dos pobres e dos rejeitados, vidas de profetas e mártires do Reino de Deus.

As estatísticas que são publicadas todos os anos pela Santa Sé indicam o número daqueles que de facto deram a vida a serviço da missão da Igreja. Muitos outros há que sofreram dificuldades extremas por amor das suas crenças. O martírio dá-nos uma indicação do grau de oposição que existe no mundo à mensagem cristã. Na verdade, ele representa o cumprimento da promessa feita por Cristo aos seus discípulos, e o cumprimento das bem-aventuranças. É claro que a natureza do martírio mudou. Já se não pode dizer que os cristãos de hoje são mortos por acreditarem nesta ou naquela verdade da fé católica. Há um maior número de mártires hoje por causa da sua fidelidade à missão de amor que lhes foi confiada. Neste sentido, eles são “mártires sociais”, mártires que morrem por causa da sua postura a favor da justiça e do amor.28

O Bispo Dien (do Vietname) é citado muitas vezes por causa da declaração profética que fez no Concílio Vaticano II, ao dizer “Nós temos muitos mártires, sim; mas teremos mártires da Justiça?”

Assuntos para Reflexão e Debate

Segue-se uma breve reportagem de alguns profetas contemporâneos (profetas de justiça social e de eco-justiça):

  • Que mensagem te trazem?
  • De que maneira te motivam a aprofundar o teu compromisso profético com a JPIC no contexto específico em que vives?

PROFETAS CONTEMPORÂNEOS

O Arcebispo Óscar Romero29

Óscar Romero nasceu em El Salvador em 1917 e foi ordenado sacerdote em 1942. Foi consagrado bispo em 1970 e tornou-se Arcebispo de San Salvador em 1977. Num primeiro tempo, Dom Óscar Romero foi fortemente conservador, uma pessoa introvertida e pouco aberta às aspirações do seu povo. Mas esta situação viria a alterar-se radicalmente com o suceder-se de vários acontecimentos. A sua vida ficou virada ao contrário quando o seu amigo, o Padre Rutilio Grande foi assassinado, um de entre vários sacerdotes trucidados. Este acontecimento veio acordá-lo para a gravidade da situação de injustiça e violência que se vivia e foi o estopim que veio revolucionar a sua vida.

A partir daquele momento, Dom Romero organizou a vida da sua diocese à volta da doutrina de João Paulo II, que ia falando da opção preferencial pelos pobres, que foi uma das prioridades da evangelização avançadas durante várias Conferências como Puebla e Medellín. Começou a prestar atenção ao tipo de experiência de fé que os pobres e os mais pequenos da sua diocese desejavam. Também se tornou um firme defensor das comunidades eclesiais de base - o único bispo daquele país a acreditar nelas.

O seu apurado senso de evangelização levou-o a encontrar maneiras de inculturar o cristianismo na realidade social do seu país, um país subjugado pela pobreza, pela ditadura e pela violência dos ricos. Os seus sermões eram transmitidos por todo o país via rádio. Também tinha outro programa em que dava conta da situação à medida que ia sendo sentida pelo povo e pela Igreja local. Sempre que pregava, usava palavras duras contra a violência e as injustiças de que o seu povo era vítima. A sua postura radical estava firmemente enraizada no Evangelho e na dignidade da pessoa.

“A Igreja afirma e defende a verdade eterna revelada por Deus, segundo a qual o homem e a mulher são imagens de Deus e que, por causa da obra redentora de Jesus Cristo, foram libertados da escravatura do pecado e receberam a dignidade de Filhos de Deus, ficando livres para escolher o seu destino e participar, para sempre, na glória de Deus. Esta é a verdade daqueles que defendem a Igreja, independentemente dos sistemas ou das realidades políticas” (1.1.1980).

Dom Óscar Romero sempre procurou contextuar o cristianismo na realidade política por forma a poder falar contra a corrupção, a falta de democracia, as violações dos direitos humanos e para admoestar os cristãos contra o perigo de misturar Evangelho e política com demasiada facilidade, especialmente no caso de grupos que se serviam da violência. O Evangelho tem certamente uma dimensão política, mas também ordena alguns comportamentos específicos.

“…É por isso que nós devemos assegurar o processo de libertação do nosso país. A Igreja não nos abandonará; ela continuará a viajar connosco mas com a voz do Evangelho, que é a da transcendência de Cristo. Ela continuará a exigir que cada uma das pessoas envolvidas na luta pela libertação ponha a sua confiança em Jesus Cristo, o maior libertador de todos e nunca O perca de vista, se houverem de ser fortes e eficazes” (1980).

O Bispo foi inabalável na sua oposição à violência imposta pelos donos do poder (os políticos, os fazendeiros ricos, os militares, a polícia nacional), tal como à violência dos revolucionários militantes que diziam estar a agir em nome da justiça. Dom Óscar Romero bem sabia que estava a caminhar à beira do precipício, mas decidiu continuar, convencido como estava de que o Evangelho não era apenas a fonte da justiça social, mas também a fonte da paz.

“O não à violência foi o seu único grito (e também da Igreja) sempre que alguém levantava a mão contra outro ser humano, fosse quem fosse. A violência é um pecado que conspurca o mundo. Este grito de denúncia e de resistência nunca incendiou os ânimos na violência e no ódio dentro a Igreja…Pelo contrário, a voz da Igreja sempre promoveu a fraternidade fundada na fé e na verdade revelada por Deus, como fonte de inspiração da doutrina social” (1978).

Acabou por receber inúmeras ameaças de morte, tendo sido assassinado a 24 de Maio de 1980, enquanto presidia à celebração da Eucaristia.

Dorothy Day30

Dorothy Day nasceu em 1897, numa família de jornalistas. Assim, juntou-se a seu pai e aos seus irmãos na mesma profissão. Antes de se converter à fé católica, já escrevera artigos de justiça social para vários periódicos seculares. Também participou no movimento anti-guerra (Primeira Grande Guerra Mundial); defendeu os direitos eleitorais das mulheres, e escreveu sobre pessoas que sofriam a pobreza.

Durante os anos 30, o jornal Catholic Worker (O Operário Católico - que foi fundado por ela e por Peter Maurin) deu a muitos jovens católicos, então oprimidos pela Depressão, a oportunidade de servirem os outros. Viviam em pobreza voluntária e promoviam a justiça racial e social. Logo após o bombardeamento atómico do Japão, Dorothy condenou essa acção num artigo veemente. Durante os anos 50, o Catholic Worker continuou a avisar a humanidade do perigo nuclear que o mundo enfrentava, convidando ao jejum e ao protesto.

No decurso do Concílio Vaticano II, Dorothy Day participou num jejum de dez dias dum grupo internacional de mulheres. O seu objectivo era pedir aos bispos de todo o mundo que condenassem as guerras de destruição maciça. Nos últimos anos de vida, ainda marchou com Cesar Chavez e com os United Farm Workers (Associação dos Trabalhadores Rurais). O Catholic Worker continuou a escrever sobre o sofrimento dos povos da América Central. Foi condecorada com a Laetre Medal pela Universidade de Notre Dame em 1975.

A Dorothy viria a falecer em 1975; desde então, o Catholic Worker Mvement (Movimento dos Operários Católicos) tem continuado a crescer. O seu espírito e o seu zelo pela justiça social continuam presentes no meio dos Operários Católicos. Neste ano de 1997, foram programados encontros de nível nacional para comemorar o seu centésimo aniversário natalício.

Mahatma Gandhi31

Mohandas Karamchand Gandhi nasceu a 2 de Outubro de 1869, na costa ocidental da Índia.

Pertencia a uma casta de comerciantes, embora alguns membros da sua família estivessem na política. Foi educado na tradição hindú. Casou-se aos doze anos e, passados cinco anos, foi estudar direito na Inglaterra. Em 1891, estabeleceu gabinete jurídico em Bombaim e, em 1893 emigrou para a África do Sul, onde viveu até 1914. Em 1894, fundou o Indian Congress of Natal (Associação Índia do Natal) no intuito de defender as pessoas Índias humilhadas e marginalizadas que viviam na África do Sul.

Foi durante este período que Mohandas se dedicou ao estudo do Bhagavad Ghita e do Evangelho (especialmente o Sermão da Montanha) e se tornou um perito no princípio da não violência enquanto processo religioso e político. Serviu-se de estratégias não violentas para defender os seus direitos já em 1906.

O discernimento espiritual de Gandhi levou-o a uma vida de não violência e de serviço dos membros humildes da sociedade. Não fazia distinção entre as dimensões espiritual e social da vida; e ao actuar assim, fez um compromisso firme com o avanço da Justiça e da Paz.

A não violência que ele praticou, conhecida pelo nome de “técnica do satyagraha”, não

consiste no pacifismo ou num estado de resignação passiva face ao inimigo. Aquela técnica consiste em adoptar uma atitude activa de amor, de resistência às situações de injustiça, de oposição ao mal, de desobediência a leis injustas mas de modo não violento. O “satyagraha” requer grande coragem interior, porque a pessoa deve ter todo o cuidado em não cair na ratoeira da vingança e do ciclo da violência.

Em 1914, ele voltou à Índia depois de ter lutado pelos seus princípios na África do Sul.

Gandhi estava convencido de que tinha uma missão a cumprir: espalhar a verdade e a não violência pelo mundo todo como método do contra-ataque à violência e à mentira.

Ao voltar, comprometeu-se a lutar contra o imperialismo britânico, por forma a alcançar a independência política e espiritual do seu país. Em 1915, fundou o seu primeiro “ashram” e começou a viajar pelo país para sensibilizar o povo, especialmente os pobres, sabendo que fonte de coragem eles eram para a Índia. Gandhi começou por organizar campanhas de desobediência civil a leis injustas que tinham sido promulgadas pelos ingleses, seguidas de campanhas de cooperação. Todas estas acções não violentas tiveram o mérito de desestabilizar a economia e a administração colonial. As suas campanhas mais famosas foram: a “campanha do sal” contra o monopólio inglês, e a “campanha dos têxteis” contra a importação de têxteis do estrangeiro. Nesta última, Gandhi tornou-se o apóstolo dos “khadi”, as fábricas de fiação do algodão que era produzido na Índia.

Gandhi participou activamente nas negociações que haveriam de dar à Índia uma constituição mais favorável que, mais tarde, levaria à independência daquele país em 1946. Ele nunca hesitou em arriscar a vida, jejuando quase até à beira da morte. Na sua luta pela independência, ele sofreu inúmeras incompreensões por obra dos líderes políticos que não tinham a coragem de o ignorar; precisavam dele por causa da sua enorme popularidade junto dos pobres, embora tivessem recorrido à violência.

A Irmã Rani Maria32

A Irmã Rani Maria nasceu a 29 de Janeiro de 1954 em Kerala, Índia. Recebeu uma educação cristã que se tornou a base da sua vida e do seu trabalho até à hora da morte. Logo desde tenra idade manifestou grande preocupação pelos pobres e pelos oprimidos. Em 1974, entrou na congregação das Franciscanas Clarissas.

Onde quer que fosse enviada, ela ajudava as pessoas a reflectirem sobre os seus problemas e a reagir de forma adequada. Este método levou as comunidades das aldeias a envolverem-se em actividades de desenvolvimento: organizar escolas informais, construir casas de preço acessível, fornecer água potável, controlar os sistemas públicos de distribuição, introduzir indústrias de pequeno porte, dar aulas de alfabetização a jovens que tinham abandonado a escola, a mulheres e a pessoas idosas. Em tudo isto, a Irmã sempre fez questão que as iniciativas fossem movimentos populares de desenvolvimento, agindo sempre apenas como “humilde catalítico”.

Por ter estudado sociologia, ela tinha uma noção profunda da situação social e do fundo cultural das pessoas. Desta forma, a sua dedicação, o seu zelo e o seu interesse iam de mãos dadas com uma abordagem sistemática do desenvolvimento humano. Costumava dar aulas de consciência social, e criou vários programas para levar o povo à conscientização e ao senso de pertença. A sua dedicação social foi muito para além do simples fornecimento de instalações ou de serviços de socorro. O seu objectivo era transformar as pessoas divididas e alquebradas em “imagens de Deus”. O seu amor e a sua compaixão encontrou saídas inimagináveis, na acção social e em serviços à comunidade.

A Irmã Rani Maria foi depois enviada para Udainagar, diocese de Indore, em 1992. Eis alguns exemplos de como ali deu ao povo o senso de pertença:

• Criou “Seva Samities” em várias aldeias - um plano de poupança para garantir aos agricultores a compra de sementes e adubos a juros muito baixos. O resultado foi a sua libertação da dependência dos agiotas.

  • Organizou grupos de mulheres, levando-as à consciência das suas capacidades, direitos e responsabilidades, mediante programas de educação de adultos. Hoje, estas mulheres estão envolvidas em várias actividades de desenvolvimento que compreendem pequenas indústrias de família, educação sanitária, etc.
  • Fortaleceu as “Panchayats” ou comissões de aldeia, alertando-as para os seus direitos e responsabilidades e assistindo-as na planificação de programas de desenvolvimento sustentado.
  • Criou Comissões de Protecção à Floresta, de que se serviu para conscientizar os habitantes das aldeias da importância da protecção à floresta. Tais Comissões tiveram o apoio do Departamento Florestal.

A conscientização do senso de pertença dos pobres despertou a oposição dos que tinham interesses adquiridos, tais como os agiotas, as pessoas envolvidas na destruição ilegal das florestas, e líderes que queriam servir-se das Panchayats para fins pessoais. Por várias vezes fizeram protestos contra as suas actividades, mas ela continuou imperturbável perante a sua oposição e ameaças, inspirada no trecho de São Lucas 4, 18: “O Espírito do Senhor está sobre mim porque me escolheu para levar boas notícias aos pobres…e a proclamar a libertação dos oprimidos…”

A 25 de Fevereiro de 1995, ela foi barbaramente assassinada em plena luz do dia, tendo sido arrancada do autocarro em que viajava.

No seu funeral, a liderança local prestou-lhe honras com as seguintes palavras: “A Irmã Rani Maria não está morta: ninguém pode matá-la. Ela será sempre uma inspiração para nós no futuro”.

Joseph Au Gi-Fu

Joseph nasceu em Macau em 1941. Foi para Taiwan aos 19 anos e formou-se em Engenharia Química. Foi depois para a Suíça, onde passou 8 anos a estudar e a trabalhar, diplomando-se como Engenheiro Químico Nacional da Suíça. Por esta altura foi convidado a voltar a Taiwan para trabalhar como director do departamento de investigação numa das maiores indústrias de plástico do país. Teve grande êxito profissional; tornou-se um empresário abastado e era muito admirado pelos seus colegas. Mesmo assim, foi um católico profundamente envolvido. Depois de cerca de vinte anos de êxito na sua carreira, começou a questionar o sistema de valores deste estilo de vida. Tornou-se cada vez mais consciente das injustiças e da violência que se praticavam contra a humanidade e contra o ambiente em nome do progresso e do desenvolvimento. Em 1984, renunciou ao emprego. À procura dum significado mais profundo para a sua vida, foi estudar teologia e viajou por diversos países para falar com gente que tinha as mesmas incertezas e a mesma dedicação. Há nove anos, voltou a Taiwan e começou a viver um estilo de vida alternativo que descreve da seguinte maneira:

  • Uma vida simples: num ambiente rural, deixando de lado o conforto e as conveniências da vida urbana, resistindo ao desejo da riqueza e da fama, vestindo roupas simples e utilizando muito poucos utensílios eléctricos modernos. Nada de objectos descartáveis ou embalagens desnecessárias. Também nada de confecções ou enlatados - com opção feita por uma dieta vegetariana. Uso muito cuidadoso da água. Os cozinhados fazem-se a lenha.
  • Uma vida natural: viver em harmonia com a natureza e ser amigo de todas as criaturas de Deus. Amar a terra significa protegê-la da poluição e da destruição. Não há produção de lixo: todos os resíduos são classificados, reutilizados e reciclados. Não se usa nenhum detergente químico, nenhum pesticida, nem adubo. Evitam-se os produtos plásticos. A água vem duma nascente próxima (e não de torneiras), tudo como parte da opção feita por um estilo de vida alternativo.
  • A vida espiritual: combinação de modos de oração e meditação - orientais e ocidentais. Leitura da Bíblia, yoga e contemplação, todos os dias.

Há partilha e faz-se oração de grupo com as visitas. É um estilo de vida que integra natureza e presença de Deus. Pratica-se o amor mútuo e a mútua assistência com todas as pessoas de boa vontade, sejam quais forem a religião, o género, a nacionalidade e a raça, com especial preferência pelos fracos e os incapacitados, por aqueles que sofrem espiritualmente e por aqueles que não têm quem os ajude.

Eis um trecho tirado dos seus escritos:

“Os que vêm a Yenliao (o nome da aldeia) ficam admirados por me verem aqui, a viver este tipo de vida simples. As muitas perguntas que me fazem obrigam-me a reflectir a fundo e funcionam como um verdadeiro teste à minha determinação. Eles procuram imaginar que é que me fez mudar tão radicalmente ao renunciar à vida urbana e à carreira de prestígio que eu tinha, e respectivos salários tão compensadores. Para admiração minha, são mesmo os meus amigos mais íntimos que manifestam dúvida sobre a minha forma simples de viver. Eles interrogam-me com curiosidade, tentando imaginar que é que me terá trazido a esta opção: terão sido frustrações, dificuldades, desilusões? Eles pensam que eu estou a desperdiçar os meus talentos num lugar tão abandonado. Acham que eu estou a “fugir” ao mundo, alguém que se recusa a dar o seu contributo à sociedade.

“Se eu tivesse continuado na minha ocupação anterior, que é que eu teria alcançado até aqui? Ao máximo, eu teria podido fazer alguma investigação para criar novos produtos ou, então, ter ajudado estudantes a adquirir conhecimentos. Produtos novos não podem mudar o coração duma pessoa, e nem sequer o pode o saber. Para mais, já há muitos peritos e cientistas no mundo que podem oferecer a sua perícia na área das suas especializações. Por outro lado, as pessoas que se querem dedicar a uma vida simples face a uma mudança de atitude são muito poucas…

“O crescimento económico tem sido muito desequilibrado: as pessoas que têm enriquecido não se têm tornado mais cultas nem têm adquirido valores espirituais. Para muitos, progresso significa crescimento económico, maiores lucros, novos produtos industriais…Viver uma vida simples é sinónimo de retrocesso, atraso. Mas que é realmente o progresso? O verdadeiro progresso não se pode medir apenas em termos económicos, tecnológicos, ou de novos produtos. É mais importante olhar para o crescimento da vida espiritual das pessoas. O progresso humano precisa de ser julgado em termos da qualidade da vida: se há ou não mais harmonia, mais interesse mútuo, mais amor entre as pessoas. É o amor que é o critério autêntico do progresso. O avanço tecnológico não pode ser o critério do progresso humano; pelo contrário, ele tornou-se o factor central da nossa autodestruição. Não estou a negar o contributo da ciência e da tecnologia que nos traz benefícios a todos. Por outro lado, é preciso perguntarmo-nos se o crescimento económico traz felicidade e bem estar a todos os povos: aos ricos e aos pobres, aos países desenvolvidos e aos subdesenvolvidos, às gerações presentes e às futuras…Importa levar em consideração não apenas os seres humanos, mas também o ambiente e a natureza, incluindo as plantas, os animais, o ar, os rios, os oceanos, as montanhas e o solo.

“Não é fácil libertar-se dos desejos vorazes e hedonísticos do coração humano para os substituir com o desapego e o autocontrole. Para fazer uma mudança deste tipo é precisa a ajuda da educação do coração e o cultivo dos valores religiosos. Aquilo que aprendemos da experiência da vida é que nos dá a verdadeira sabedoria…

“Pela minha parte, tenho andado a viver este estilo de vida há oito anos. Cada dia que passa, eu sinto-me mais livre, mais calmo e mais feliz neste estilo de vida simples. Eu não o vou avaliar pela sua eficácia. Embora ainda não tenha ouvido Deus a falar-me, eu tenho experiência da sua presença dentro de mim. A minha esperança é que as pessoas consigam mudar a sua vida, as suas atitudes, o seu sistema de valores e visão da vida - que resultem numa mudança de relacionamento entre os seres humanos, entre os seres humanos e a natureza, entre os seres humanos e Deus.

“Tudo isto deve derivar do AMOR, do amor a si mesmo, do amor ao próximo, do amor ao mundo todo. Só o AMOR pode levar as pessoas a viverem um estilo de vida simples de boamente. Quando todos viverem desta maneira, haverá PAZ no mundo. A caminhada é longa. Talvez nós não cheguemos a ver esse dia chegar; no entanto, é convicção minha de que é este o único caminho para a paz mundial. Então, vamos começar a andar...”

A Professora Wangari Maathai

Ser profético a valer exige uma convicção firme e uma dedicação corajosa face à oposição e às ameaças. No Quénia, chamam à Professora Wangari Matthai a leoa das mulheres por causa da sua obra corajosa em prol do ambiente e da justiça para o seu povo.

Ela é a fundadora do já famoso Greenbelt Movement (Movimento da Cintura Verde), cujo nascimento remonta a 1971, e conta agora mais de 50.000 membros e vários viveiros de plantas ornamentais. Esta organização, além de ter plantado 7 milhões de árvores por todo o Quénia, tem feito campanhas de sucesso a favor dos direitos dos habitantes urbanos ao lazer, tem protestado contra a poluição química e contra a construção de habitações fracas para os pobres.

Esta leoa das mulheres é uma pessoa “populista” que não tem medo dos políticos patriarcalistas do Quénia. Não tem medo de desafiar o Senhor Moi e o seu governo quando se trata de proteger a terra e melhorar a qualidade de vida para todos. Marcada com o rótulo de “subversiva” pelo governo, ela entrou para a arena política como membro do Forum para a Restauração da Democracia (FORD). Ao trabalhar pela libertação de presos; ao participar em greves de fome, marchas de protesto e grupos de pressão, ela tem sido acusada de transgressões, publicamente vexada pelos políticos e tem sido vítima das maiores calúnias.

Mas a falta de bom nome nos círculos políticos não tem impedido a Professora Maathai de alcançar reconhecimento internacional pelo trabalho que faz. Sendo a primeira mulher professora universitária do Quénia, ela chefiou o Departamento de Estudos Veterinários em Nairobi e, em 1984, recebeu a maior honra da Suécia, o prémio “Direito à Subsistência”. É membro da comissão de selecção de premiados da UNEP (United Nations Environment Prize - Prémio Ambiental das Nações Unidas) e recebeu o prémio de liderança em agricultura sustentável da África.

Wangari Maathai, à maneira bem profética, lança invectivas contra aqueles que violentam a terra e oprimem os pobres. Só porque alguém é rico, poderoso e proprietário - isso não é título para a destruição do ambiente. Faz-nos recordar o profeta hebraico Amós quando proclamou:

O leão ruge: quem não temerá?
O Senhor Javé fala: quem não profetizará?
…Não sabem agir rectamente - diz o Senhor
Eles que amontoam nos seus palácios (o fruto) das suas violências e dos seus roubos (Amós, 3: 8,10).

Irmã Helen Prejean

A Irmã Helen Prejean, dos Estados Unidos, cumpre os critérios duma profetisa moderna. Pelo seu trabalho, pelo seu exemplo, pelos seus escritos, pelo seu falar cândido e pela sua convicção religiosa, ela enfrenta o governo americano, principalmente sobre a sua política da pena de morte.

A Irmã Helena é membro das Irmãs de São José, em New Orleans. Ela presta serviço a famílias e a indivíduos que foram afectados pela pena de morte. É uma das vozes mais vigorosas a favor da abolição da pena capital nos Estados Unidos. O seu serviço de conselheira espiritual dos condenados à morte dá testemunho de que toda a vida é sagrada, tanto culpada como inocente. Ela tem-nos mostrado que o amor da reconciliação não conhece fronteiras, ao cuidar também das famílias das vítimas dos próprios condenados à morte. A sua atitude persistente e as suas estórias cheias de sentimento têm conseguido acordar muitos corações adormecidos para a contemplação da horrorosa realidade da pena de morte. A Irmã Helena é absolutamente imparcial na sua postura profética. O seu livro Dead Man Walking (Caminhada do Homem Morto) está agora em filme, aliás de grande êxito. Os muitos prémios que ganhou atraíram um vasto auditório. Desta maneira, a sua postura profética tocou muitos que, de outra maneira, talvez não dessem pelo horror que é o assassínio legal.

N.B. Estes são apenas alguns profetas contemporâneos. Sem dúvida que haverá muitos mais homens e mulheres que poderiam ter sido incluídos nestas páginas. Somos forçados a pôr limites ao seu número. No entanto, o grupo de promotores muito agradeceria poder receber uma breve descrição de pessoas que conheça e cuja vida poderia constituir uma inspiração para os demais.

2.2 O REINADO DE DEUS

A pregação e a actuação de Jesus centraram-se no Reinado de Deus:

  • O Reino de Deus já chegou: Lc 11:20
  • O Reino de Deus está no meio de vós: Lc 17:21
  • Cumpriu-se o tempo de espera; o Reino de Deus está próximo. Mc 1:15, Mt 4:17

O Reino de Deus está “aqui” e “ainda não” (está)

O anúncio do Reino é a irrupção duma nova era, duma nova ordem de vida: e é a isto que nos referimos quando dizemos “Venha a nós o vosso Reino…”

A proclamação do Reino por Jesus
foi uma reivindicação
de que uma época especial de Jubileu tinha chegado
e que n’Ele todos os mais altos ideais do Jubileu se cumpriam:
Ele escolheu-me
…para anunciar o ANO DE GRAÇA
oferecido pelo Senhor.

Lc 4:18-19

Quando Jesus proclamou o Reino de Deus…

  • Em primeiro lugar, estava a anunciar o juízo divino da ordem social corrente;
  • Em segundo lugar, fazia a afirmação de que as coisas podem mudar;
  • Em terceiro lugar, que a mudança já tinha começado.

O modo de vida de Jesus foi, de facto, uma redefinição daquilo que significa ser humano. O seu conceito de vida humana não assentava sobre os padrões correntes mas, antes, sobre os padrões e valores do futuro Reino. Acreditar nele e praticá-lo decidia a sua existência. Ele viveu como se o seu Reino já existisse; e ao fazê-lo, tornou-o presente - no que tinha a ver com os seus relacionamentos pessoais. Mas o Reino é uma realidade comunitária e pública, além de ser uma realidade pessoal. Para que se torne plenamente presente, tem que se fazer uma transformação das comunidades e da sociedade como um todo. Os sequazes de Jesus são chamados a “completar…o que falta aos sofrimentos de Cristo” (Col 1:24), continuando a viver segundo os valores do Reino e, desta forma, continuando a trazê-lo à existência. A única maneira de eu poder realmente proclamar a minha fé no Reino é vivendo-o - na esfera pessoal como na interpessoal, tal como nas esferas socioeconómica e política.33

Os valores do Reino têm a sua melhor explicação nas Bem-aventuranças:

  • Viver segundo os valores do Reino é fazer uma conversão religiosa: é transformar as atitudes com respeito a: (1) haveres - vender e dar o rendimento aos pobres (Mt 19:21); (2) poder (Mt 5:5,11:29; 18-14; (3) prestígio social (Lc 14: 7-11) - nunca ocupando o primeiro lugar quando se é convidado para uma festa; (4) compreensão da religião (Lc 18:13) - reconhecendo humildemente a nossa condição de pecadores.
  • Viver segundo os valores do Reino é fazer conversão moral: é uma mudança na maneira como nos relacionamos com Deus e com os outros: (1) partilhar os haveres, ter uma bolsa comum (Jn 13:29); Actos 4:34); (2) depender da hospitalidade dos outros (Mt 8:20); (3) ser servo dos outros (Mt. 20:25-28; Jo 13:15); (4) não procurar posições de privilégio (Mt 20:21-23); (5) não se servir da religião para alcançar o poder, uma posição ou um privilégio (Mt 20:6-8).
  • Viver segundo os valores do Reino é fazer conversão política: é trabalhar em prol de: (1) uma ordem económica diferente (Mt 20:1-15); (2) uma ordem política diferente (Mt 20:25-26); (3) uma ordem cultural diferente - atitudes para com os samaritanos e as mulheres (Jo 4:9,27); (4) uma ordem religiosa diferente (Jo 4:23-24; Mt 23:8).

A proclamação do Reino feita por Jesus implicava uma nova visão de sociedade. O Reino que Ele anunciou era a realização duma comunidade alternativa que já tinha sido prevista na história bíblica por altura do Êxodo, quando o povo israelita, uma vez liberto do cativeiro no Egipto se tornou o povo de Deus (Êx 6:2-7).34

A proclamação do Reino que Jesus fez é ao mesmo tempo uma promessa e uma convocação, um olhar para a realização final desta comunidade alternativa.

Todos os seus milagres devem ser vistos em relação com a mensagem do Reino.

O Reino de Deus torna-se presente onde quer que Ele supera o poder do mal. Naquele tempo, tal como hoje, o mal aparecia sob muitas formas: sofrimento, doença, morte, possessão diabólica, pecado pessoal, imoralidade, a hipocrisia sem amor daqueles que reivindicavam conhecer Deus, a defesa de privilégios de classe, a ruptura nas relações humanas, etc.

É especialmente aos que vivem à margem da sociedade que Ele comunica a possibilidade duma nova vida com base na realidade do amor de Deus. O Reino de Deus é para os marginalizados, para os que sofrem, para os cobradores de impostos e os pecadores, para as viúvas e para a s crianças.

Na pregação e na actuação de Jesus, o Reino inclui, claramente, a substância social, política e económica das relações humanas tais como Deus as queria. As maneiras típicas em que Ele exprimiu e manifestou a presença do Reino tinham todas a ver com o bem estar do povo. As curas e os exorcismos de Jesus davam indicação de que o Reino já estava presente. (Vozes do Terceiro Mundo, p.78). Ele também o entende como o fim do governo de Satanás, que representa o mal e o poderio estruturais (Mc 5:1-20).

É bem claro que Ele pretendia formas de relacionamento social bastante bem definidas e específicas para o Reino-sociedade em que se entra, ou então, como requisitos para essa entrada. De facto, a velha ordem das coisas estava a ser substituída por uma nova ordem sociopolítica, ou seja, o “Reino de Deus” em que Jesus estava a convidar as pessoas a “entrar”.35

No ministério de Jesus não há tensão entre salvar do pecado e salvar da doença física, entre o espiritual e o social. Nos evangelhos, os evangelistas usam a palavra “salvar”, pelo menos dezoito vezes, quando se referem às curas que Jesus opera nos doentes.

Nos evangelhos sinópticos o arrependimento (metanoia) não é um processo psicológico; ele indica o acolhimento da realidade e presença do Reino de Deus. O chamamento a ser discípulo é um chamamento para o Reino de Deus e, como tal, é um acto de graça.

Quando rezamos “Venha a nós o vosso Reino”, nós também nos comprometemos a começar, aqui e agora, a fazer aproximações e antecipações do Reino de Deus. O Reino de Deus virá, visto que já está aqui! Ele é ao mesmo tempo algo que se confere e algo que desafia, dom e promessa, presente e futuro, celebração e antecipação. Nem sequer a rejeição e a cruz são obstáculos a isso.36

Jesus fez do Reino de Deus o ponto central da sua pregação. Esta palavra convida-nos a reflectir e a imaginar como seria o mundo hoje se a vontade de Deus tivesse sido aceite e seguida por todos, se a lei do amor fosse cumprida por todos nós, se o plano da criação fosse realizado em todos os seus componentes. Este Reino é agora uma realidade, mas em tal situação que ele precisa de crescer no meio de nós. Ele é uma promessa de saúde e integridade para toda a humanidade e para toda a criação: os cegos começam a ver; os mancos começam a andar; os surdos começam a ouvir; e a Boa Nova é anunciada aos pobres.

O Reino de Deus é um reino de justiça e de verdade, de santidade e de paz, de graça, união e amor. Como realidade que é, ele capacita-nos para compreender o que é vontade de Deus e o tipo de Deus em que acreditamos. Pelo que sabemos sobre o Reino de Deus, nós podemos discernir aquilo que é bom, aceitável e perfeito. A fé no Reino de Deus impele as pessoas para serem seus servos e para edificarem o Reino de Deus “através do amor que foi derramado nos nossos corações” (1 Jo).

A igreja primitiva entendeu o seu compromisso missionário com o mundo em termos deste fim-dos-tempos que já tinham chegado e que, ao mesmo tempo, ainda está pendente. A expectativa do fim iminente era componente da missão e pressuposto para a missão; por outro lado, ela exprimia-se em missão).37

Alguns dos valores do Reino que somos chamados a promover no mundo de hoje são: a união, a segurança, a justiça, o trabalho, os relacionamentos com as pessoas e com o ambiente, a compaixão, a harmonia, a esperança, a solidariedade, a inclusão e, naturalmente, a paz.

2.3. A CONVOCAÇÃO AO JUBILEU

UMA CONVOCAÇÃO PARA REFAZER A IMAGEM DE JESUS E DA SUA MISSÃO

2.3.1 A Convocação ao Jubileu tem uma dimensão sócio-espiritual

“O Ano Jubilar tinha por objectivo restaurar a igualdade entre todas as pessoas; era uma ocasião para recomeçar tudo de novo…A justiça, segundo a Lei de Israel, consistia sobretudo na protecção dos fracos…O Ano Jubilar era para restaurar a justiça social, ou seja, os bens criados deveriam estar ao serviço de todos de maneira justa” (João Paulo II: Tertio Millenio Adveniente, Cidade do Vaticano, 1994, n.º 13 - doravante citado como “TMA”).

Cada Ano Jubilar também é um Ano Sabático porque, segundo o Levítico, o Ano Sabático acontece cada sete anos. Assim, coincidia com o Ano Jubilar: “Sete vezes Sete anos” (Lv 25:8). A lei do “descanso da terra” era para se cumprir cada sete anos e, portanto, cada 50 anos.

O Ano Sabático

Êx 23:10-13: “Semearás a terra durante seis anos e colherás os seus produtos. Mas no sétimo ano, deixarás a terra em repouso e abandonarás os seus frutos, que os pobres do teu povo comerão, e os animais selvagens comerão o que sobejar…”
Lv 25:1-7: “Mas no sétimo ano será concedido à terra um descanso, um sábado em honra do Senhor…O que a terra produzir durante o seu descanso servir-vos-á de alimento, a ti, ao teu escravo, à tua serva, ao teu jornaleiro e ao estrangeiro que vive contigo. O teu gado, assim como os animais selvagens da tua terra, poderão alimentar-se com todos esses frutos”.
Dt 15:1-18: “ De sete em sete anos cumprirás a Lei da remissão…deverás libertar todos os escravos…”

O Ano Jubilar

Veja-se Lv 25:8-55: Todas as dívidas tinham que ser perdoadas; os escravos que tinham sido acumulados durante 49 anos tinham que ser libertados; a terra que tinha sido acumulada durante 49 anos tinha que ser redistribuída…

A LIBERTAÇÃO tinha que ser proclamada para todos:

  • libertação dos escravos;
  • perdão de todas as dívidas;
  • retorno de cada qual à sua propriedade e família;
  • proclamação da liberdade por toda a terra e aos seus habitantes;
  • inauguração de um ano de reconciliação

Como se pode ver por estes textos, proclamava-se a libertação tanto do povo como da terra. É por esta razão que o ano 2000 é importante: a sua mensagem , no contexto actual, centra-se tanto nos seres como no ambiente. O Ano Sabático e o Ano Jubilar foram estatuídos para ajudar a comunidade hebraica a rectificar as injustiças e as desigualdades.

Em Lucas 4:16-19, Jesus faz uma referência clara ao Ano Jubilar, “o ano da graça do Senhor”: “…para trazer boas notícias aos pobres/aos aflitos, para proclamar a liberdade aos prisioneiros, a vista aos cegos, a liberdade aos oprimidos…”. O Jubileu, um ano de graça do Senhor, caracteriza todas as actividades de Jesus (TMA n.º11). Nesta passagem, a missão de Cristo e o tema do Jubileu estão entrelaçados (TMA n.º40).

Lucas resume todo o seu evangelho na leitura dum texto de Isaías por parte de Jesus, num Sábado. Jesus retrocedeu até ao tempo anterior ao reino de David, o do Jubileu:

  • boas notícias para os pobres;
  • liberdade para os presos;
  • a visão para os cegos;
  • a liberdade para os oprimidos;
  • o anúncio do ano de graça do Senhor.

As palavras e as acções de Jesus representam o cumprimento da tradição dos Jubileus na sua totalidade (Lc 4:16-21; Is 61:1,58:6; Lv 25:10).

“Todos os Jubileus apontam para este ‘tempo’ e se referem à missão messiânica de Cristo. Os fundamentos desta tradição eram estritamente teológicos…Se, na Sua divina providência, Deus deu a terra à humanidade, isso significa que a deu a cada um. Portanto, as riquezas da criação devem ser consideradas um bem comum a toda a humanidade. Os que possuem estes bens como propriedade pessoal são ministros encarregados de trabalhar em nome de Deus, que continua a ser o único dono em sentido pleno, uma vez que é vontade de Deus que os bens criados sirvam cada um de maneira justa. O Ano Jubilar tem como intenção restaurar esta justiça social”. (TMA n.º13).

2.3.2 A Visão de João Paulo II para o Jubileu do Ano 2000 (TMA n.º 51)

“Como poderíamos nós esquecer-nos de sublinhar ainda mais a opção preferencial da Igreja pelos pobres e os marginalizados? De facto, alguém disse que o compromisso com a justiça e a paz num mundo como o nosso, que está marcado por tantos conflitos e por intoleráveis desigualdades sociais e económicas, é uma condição necessária para a preparação e para a celebração do Jubileu”.

…Os cristãos terão que levantar as suas vozes a favor de todos os pobres de todo o mundo, fazendo a proposta de que o Jubileu seja uma ocasião apropriada para dar alguma consideração, entre outras coisas, a uma redução substancial, senão ao perdão total, da dívida internacional que ameaça gravemente o futuro de tantas nações (TMA n.º 51)

Eis algumas sugestões concretas apresentadas naquela Encíclica (TMA n.º 51):

  • comprometer-se com a justiça e a paz;
  • levantar a voz a favor dos pobres do mundo;
  • reduzir substancialmente, ou mesmo cancelar, a Dívida Internacional;
  • reflectir sobre as dificuldades de diálogo entre culturas;
  • tratar dos problemas relacionados com os direitos das mulheres;
  • promover a família e o casamento

Assuntos de Ulterior Reflexão e Acção
face ao Jubileu do Ano 2000

Em várias Igrejas locais, a preparação para o Jubileu inclui reflexões sobre a conversão, a reconciliação, o perdão, etc.38

No Zaire, os missionários do CIAM (Centre d’Information e d’Animation Missionaire) lançaram um apelo às mulheres e aos homens de boa vontade, pedindo assinaturas para uma petição de cancelamento da dívida Africana até ao ano 2000.

Na Inglaterra, algumas pessoas ligadas às várias igrejas, lançaram a Jubilee 2000 Campaign com uma petição para apresentar na Cimeira do G7 em 1999 (Cfr. Apêndice A1.4, 1.5, 1.6), uma Jubilee Charter, ou Contrato Jubilar, que apresenta um esquema prático para fazer remissão de dívidas insolúveis. Eis alguns trechos de um artigo de Ann Pettifor, Coordenadora do Contrato Jubilar:

“A convocação para o Jubileu do ano 2000 é uma convocação para retirar o jugo da degradação económica daqueles que foram escravizados pelas forças económicas, especialmente pela Dívida Internacional…O atraso da dívida insolúvel dos governos dos países mais pobres nunca poderá ter remédio senão através duma remissão acordada por parte dos credores. Para acabar com a escravidão da dívida, e para dar início a novas e disciplinadas relações financeiras entre os países ricos e os países pobres, a remissão destas dívidas deveria ser alcançada até ao ano da redenção, o Jubileu do Ano 2000…39

  1. 1. Nas Escrituras Sagradas Hebraicas, a fé da comunidade hebraica em Javé exigia que a pobreza e a dívida fossem “extintas” cada 50 anos. O mundo de hoje tem necessidade urgente dum Ano Jubilar: 20% da população do mundo estão a acumular cada vez mais terra e recursos; o número dos pobres e dos marginalizados está a aumentar, tanto no Sul como no Norte. Estas pessoas pobres não têm oportunidades de educação, assistência de saúde básica, habitação condigna, emprego digno, em suma, de tudo aquilo que contribui para a dignidade humana básica. Na medida das tuas capacidades (seja qual for o teu serviço) quais são as maneiras (ou pelo menos algumas) - mesmo modestas - com que poderás marcar o Jubileu do Ano 2000?
  2. 2. O nosso planeta Terra está a ser destruído de forma sistemática em nome do progresso e do desenvolvimento, que é só para uma pequena minoria da população do mundo. Nas Escrituras hebraicas, foi pedido à comunidade hebraica que desse descanso à terra de sete em sete anos. Durante esse ano, Javé providenciava alimento suficiente tanto para os humanos como para os animais. O Ano Sabático era uma maneira de ajudar o povo a interromper a acumulação de bens, enquanto que, ao mesmo tempo, se dava à terra a oportunidade de se regenerar. O nosso planeta só poderá ser salvo se nós, humanos, deixarmos de acumular bens. Muitos indivíduos, e organizações, também, estão a fazer esforços para salvar / regenerar o planeta.
    • Como membro duma congregação religiosa, em que categoria te encontras? Na da destruição do planeta? Na dos que ajudam a salvar o planeta? Na dos que ajudam a regenerar o planeta? Talvez nas três categorias? Na tua posição (seja ela qual for), que iniciativas poderias empreender para adaptar o conceito do Ano Sabático Bíblico à situação corrente?
  3. 3. O Papa João Paulo II, na sua Encíclica Tertio Millenio Adveniente (TMA) proclama o Ano 2000 como Ano Jubilar, ligando o conceito bíblico do Ano Jubilar à passagem de Lucas, 4,16-19. Na TMA n.º 12, ele diz que “…O Jubileu, um ano de graça do Senhor, caracteriza todas as actividades de Jesus”. Na TMA n.º 40, ele diz “Nesta passagem, a missão de Cristo e o tema do Jubileu estão entrelaçados”.

Levando em consideração a realidade do mundo actual, que sugestões farias à tua congregação religiosa sobre a forma de celebrar:

  • os seus próprios jubileus;
  • os jubileus de conventos, províncias, institutos, etc;
  • o Jubileu do Ano 2000.

2.4. REFLEXÕES TEOLÓGICAS SOBRE TEMAS ESPECÍFICOS

Segue-se uma série de reflexões sobre temas importantes que poderiam dar uma ajuda adicional no aprofundamento dos fundamentos bíblicos da JPIC.

2.4.1 A Incarnação

A teologia da Incarnação está pouco a pouco a suscitar um novo significado de Solidariedade. Embora sob a forma de Deus, Jesus não esperou que a sua igualdade com Deus fosse coisa que pudéssemos compreender. Assim, esvaziou-se a si mesmo ao tomar a forma de servo, tornando-se, como nós, em tudo um ser humano (Fil. 2:6-7). A sua vinda na nossa carne, e sendo como nós em tudo excepto no pecado, revela até que ponto pode chegar a solidariedade com os outros.

Foi através desta “inserção” num povo e pela plena “inculturação” que Jesus conseguiu realizar o plano do Pai para a humanidade. Durante 30 anos, no “Silêncio” de Nazaré, Jesus “lê e prescruta os Sinais dos Tempos” na Palestina do seu tempo. É durante este tempo que a sua missão se torna gradualmente mais clara. É pelo “esvaziamento” de si mesmo que lhe é possível cumprir a missão que lhe fora confiada pelo Pai, a de promover o Reino de Deus. Pela sua incarnação, Jesus revelou-nos a capacidade da pessoa humana em se esvaziar para fazer lugar para Deus e para os outros. Tudo aquilo que Jesus tinha por natureza, nós agora temos por graça.

2.4.2 A Ressurreição e o Pentecostes

A escuridão da noite dá a vez ao brilho da luz do dia com a chegada da alvorada. Esta inspiração tem enchido o coração e a mente das pessoas desde o início dos tempos. Com a ressurreição, Jesus tornou-se não apenas um símbolo de vida nova mas também o portador e o garante de nova vida. Agora, já está inscrita na nossa humanidade a experiência de vida nova a aparecer na terra com a vida, a morte e a ressurreição de Jesus.

O Reino do Deus não é um programa: é uma realidade apresentada pelo acontecimento da Páscoa. Intimamente ligada à ressurreição, e quase como parte do próprio acontecimento pascal, fica o dom do Espírito, que está igualmente e integralmente ligado à missão. O Espírito é o Cristo ressuscitado a actuar no mundo.

O poder da ressurreição é libertado pelo Espírito. No nosso compromisso com a JPIC, a graça torna-se operante por meio do Espírito. Para a comunidade de Jesus, a ressurreição de Cristo e a vinda do Espírito são prova tangível do “já” do Reino de Deus. O “ainda não” alimenta-se do “já” (Bosch, 41).

Se o Senhor não ressuscitou da morte, então a nossa fé é vã. Poderíamos dizer que, sem a ressurreição, a vida e a pregação de Jesus teriam representado um lindo sonho e nada mais; a lei do amor teria sido uma linda lei, mas demasiado difícil e pouco realista; a lei da justiça teria tornado a nossa vida muito melhor, mas teria custado demasiado. Mas pela sua morte e ressurreição, Jesus conseguiu autenticar o valor e a eficácia da sua vida e da sua missão.

Certa vez, Dan Berrigan estava a dar aulas sobre a morte e as várias maneiras de a encarar. Uma pessoa presente na sala, era um homem que sabia estar a morrer de cancro. Dan Berrigan fixou nele o seu olhar e, passados uns minutos, perguntou-lhe: “Qual é o problema?”. E o homem respondeu: “Eu estou a morrer de cancro”. O professor concentrou-se por alguns instantes e, depois, disse-lhe: “Isso deve ser uma coisa emocionante!”. O homem confessou mais tarde que mais nenhumas palavras fizeram tanto pela sua mudança de vida e para lhe revelar o significado da ressurreição como aquelas seis.

A ressurreição é uma promessa da vida que ainda está por vir. É a certeza da vida que derrota a morte, e ela é a marca característica das comunidades cristãs. Elas acreditam na ressurreição. A cruz, a sepultura vazia, e as aparições, transformam a visão que temos da vida. A vida tem significado; e tem sentido sacrificarmo-nos pela causa da Rectidão. É essencial que se acredite no poder que a pessoa humana tem para continuar a agir apesar da miríade de dificuldades que de todos os lados a atingem. A história de como as pessoas superam dificuldades aparentemente invencíveis é aquele género de testemunho que nos convence de a base da nossa fé na vida estar na Boa Notícia da Ressurreição.

Até que Ele venha…

A Criação leva-nos a reconhecer a beleza e a ordem que Deus gravou nela, logo no princípio. A Incarnação ajuda-nos a ver com que intensidade Deus ama o mundo e tudo o que ele contém. A Redenção dá-nos a oportunidade de compreender que nem ninguém nem nada se perderá. Tudo foi resgatado de volta pela morte e pela ressurreição da Palavra incarnada. Tudo isto alcança realização e nos é prometido. O cristão vive em tensão, entre o que já aconteceu e o que ainda está por acontecer. O Reino de Deus já está aí e ainda tem que vir. Nós olhamos para a frente, para a realização, quando Ele vier, e dedicamo-nos ao trabalho que nos compete até Ele chegar, porque Quem está para vir já chegou. Os crentes sabem que a paz , a justiça, e a beleza da criação pelas quais eles anseiam estão nas mãos de Deus e hão-de vir, quando os tempos estiverem maduros. Em vez de fazer diminuir o nosso senso de missão, esta esperança espevita-nos a tornar real aquilo que nos foi prometido.

2.4.3 A Conversão

Jesus deu início à sua pregação com as palavras: “O Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai na Boa Nova” (Mc 1:14). Pediu mudança de atitude, instigando as pessoas a mudar a orientação das suas vidas - da segurança e da insuficiência do que já sabiam e possuíam, para a fulgurante promessa do Reino de Deus que a sua vida e a sua pregação incorporavam. A conversão, a formação e a evangelização estão intimamente ligadas. Elas assentam no encontro com a vontade de Deus, na aceitação dessa vontade, e na capacidade de avaliar o que está a acontecer no mundo e na vida das pessoas a partir dessa vontade - que se exprime no plano divino do Reino de Deus.

O processo de conversão consta dum encontro com uma realidade nova, que é a aceitação da verdade e do valor daquela realidade e a configuração da nossa vida com aquela verdade. Para alguns, a conversão dá-se quase instantaneamente. Os exemplos de São Paulo e de Óscar Romero são prova disso. Para outros, a conversão apresenta-se como um processo longo e penoso de descoberta e de mudança. O que aconteceu às congregações religiosas nestas últimas décadas é um exemplo disso. Mesmo quando a mudança parece ser instantânea, o momento de conversão envolve um longo período de assimilação e de integração, como o indica o caso de São Paulo. O processo de conversão é muitas vezes penoso. Implica deixarmos o mundo que conhecemos, com todas as vantagens e desvantagens, e caminhar na direcção duma luz que mal começou a aparecer no horizonte. A escura noite da injustiça cede perante a fulgurante alvorada do Reino de Deus que foi prometido e oferecido àqueles que acreditam.

O chamamento à conversão reconhece a presença de caminhos pecaminosos e destrutivos neste mundo, e o desejo de sair deles para um modo de vida que é construtivo. É preciso receber formação para o conseguir. A fé num novo céu e numa nova terra é resultado duma vida convertida. O novo céu e a nova terra representam o fim da opressão e uma vida que é vivida em conformidade com a liberdade dada às filhas e aos filhos de Deus desde o princípio, e que foi restaurada com a vida, a morte e a ressurreição de Jesus (Gal 4:31-5:1).

Converter-se aos Brados dos Pobres

O coração de Deus comove-se ao ouvir os brados dos pobres. Este Deus conhece os sofrimentos do seu povo; tem ouvido os seus gritos; e vai descer para os salvar (Êx 3). Antes de agir em prol da justiça e do amor, é preciso fazer como Ele: primeiro ouvir os brados das pessoas; conhecer o seu sofrimento; e ter um desejo firme da sua libertação.

Os brados dos pobres são dom do Espírito Santo. Deus tanto dá esse grito como também lhe dá resposta. Para os crentes, este grito que está na boca daqueles que a Ele recorrem com esperança, é o ponto de encontro entre Deus e aqueles que Ele chamou. O grito das vítimas da injustiça, quer dizer, o grito dos pobres, é o teste da promessa do Reino de Deus, da verdade do Evangelho que pregamos e da profundidade do amor dos discípulos. Onde este brado não tem resposta, é mais difícil que as pessoas acreditem. É esta a pedra em que as pessoas tropeçam. Quando ouvimos e respondemos ao brado dos pobres de modo autêntico, nós passamos por uma conversão.

A Opção Evangélica pelos Pobres

É verdade que todas as pessoas são, de certo modo, pobres; mas é importante entender a realidade dos que são pobres do ponto de vista material nos nossos dias, ou seja, daqueles que não têm o suficiente para viver, cuja voz e contributo para a sociedade não conta para nada, e que, em muitos casos, são vítimas de discriminação positiva e de violência.

Visto que o amor de Deus toca e transforma toda a criação, e o mandamento do amor se aplica a todo o homem e mulher, nós temos que descobrir o modo de exprimir esse amor. Nós somos chamados a amar toda a gente. Esse amor, nuns casos fará crescer as pessoas, noutros “arrancá-los-á aos seus tronos”. Deus fez opções. A opção a favor dos pobres é a primeira de todas as opções, tal como é apresentada em toda a Bíblia, tanto nas proclamações como nas acções de Javé e de Jesus. Deus escolheu um povo pequeno e humilde e mandou os seus profetas para defender o forasteiro, a viúva e o órfão. Os profetas, em nome de Deus, lembraram ao povo a sua aliança com Deus e proclamaram anos de jubileu em que tudo seria rectificado e os pobres seriam libertados das suas dúvidas. Jesus nasceu na cidade mais pequena; fez dos pobres e dos marginalizados seus companheiros durante a sua vida e missão.

A opção pelos pobres representa uma escolha entre várias maneiras de entender e de se comportar. Cada escolha pode tornar-se numa experiência de conversão. Ela representa uma escolha de amigos e de companheiros, uma escolha de maneiras de evangelizar, uma escolha de interesses, uma escolha de lugares onde investir os nossos recursos, e uma escolha de sabedoria. A opção pelos pobres e o trabalho pela justiça não são a mesma coisa, mas estão intimamente relacionados. A opção pelos pobres aparece como a opção privilegiada e a maneira evangélica de levar a justiça a todos. Para se conseguir a justiça e a paz, as pessoas precisam de viver no mundo dos pobres e partir daí para compreender o mundo, descobrir as suas possibilidades de justiça, condenar tudo o que é injusto e construir um mundo em que todos são acarinhados e bem recebidos. Todo este processo é um processo de Conversão.

A Conversão dá-se no, e através do, nosso compromisso com a JPIC

Um sacerdote religioso do Canadá apresenta-nos a seguinte reflexão:

“…Eu estou convencido de que nós, aqui no Norte, não somos capazes de nos rever nesta conscientização. Temos de experimentar a VIDA tal como a maior parte do nosso povo a experimenta. Nós estamos demasiado afastados da vida da gente. As estruturas da Vida Consagrada mantêm-nos longe da vida real das pessoas. Nós temos de VER/OUVIR o grito dos pobres e temos de estar prontos a usar a palavra “pobre” com o sentido que o mundo de hoje lhe dá, quer dizer, os que são materialmente pobres, abandonados, não-pessoas, e os que, no fundo, estão de fora das estruturas do poder económico…Isto vai pelo nome de “perspectiva” e, para mim, isto é conversão”.

Um exemplo concreto de conversão ao brado dos pobres:

“Que é que ocasionou a conversão de Dom Romero? Já me fizeram esta pergunta algumas mil vezes. Mas eu não tenho resposta de tipo técnico ou psicológico. Nunca lhe falei disto. Não é fácil mexer com as coisas mais profundas da vida de outra pessoa. Até seria presunção tentar fazê-lo. Apesar disso, tenho as minhas próprias ideias a respeito da sua conversão, e de que vos poderia falar, pelo menos para registar o facto de que se deu uma mudança nele e de que o que fez a seguir não se pode explicar mediante as interpretações manipuladoras a que foi submetido.

Eu estou convencido de que o momento da conversão de Dom Óscar Romero foi o do assassínio de Rutilio Grande. Dom Romero conhecia este homem muito bem. Considerava-o um padre exemplar, além de amigo. O padre Rutilio foi o mestre de cerimónias na sua ordenação episcopal. Apesar disso, Dom Romero não concordava com o tipo de trabalho que o seu amigo tinha andado a fazer em Aguilares. Achava que era demasiado político, demasiado “horizontal”, muito afastado da missão fundamental da Igreja e demasiado próximo de certas ideologias revolucionárias. Neste sentido, o padre Rutilio era um problema para Romero, além de ser também um enigma. Por um lado, ele era um bom padre: zeloso, de fé profunda; pelo outro, ele parecia ter escolhido uma missão errada. Eu creio que o enigma ficou resolvido quando Rutilio morreu. Foi quando se encontrou de pé, junto ao seu cadáver, que as escamas lhe caíram dos olhos: Rutilio tinha razão. O tipo de trabalho que fez, e o tipo de Igreja e de fé que ele abraçara estavam certos. Mas, mesmo a nível mais profundo, se era verdade que Rutilio morreu como Jesus e mostrou o maior amor possível ao morrer pelos seus irmãos e irmãs, então, por certo que também a sua vida fora como a de Jesus. Rutilio fora um seguidor muito especial de Jesus.

Em suma, não era Rutilio que estava enganado: era o próprio Romero. Não era Rutilio que precisava de mudar: era Romero. E foi exactamente isso que ele fez”.40

(Para mais informação sobre Óscar Romero, veja-se a secção 2.1.7)

2.4.4 A Libertação

Nas Escrituras hebraicas, as palavras “Salvação” / “Salvar” usam-se em referência à salvação total da pessoa: não havia dicotomia entre corpo e alma. Sendo Jesus judeu, também Ele usou a palavra “salvar” em referência à pessoa toda, integrada. Jesus usa a palavra “salvar” dezoito vezes nos Evangelhos ao referir-se à cura dos doentes e ao perdão dos pecados.

A dicotomia entre corpo e alma é um dos resultados da influência da filosofia grega sobre a teologia e a catequese cristãs da Igreja primitiva. Em história da Igreja, está a reconhecer-se, cada vez mais amplamente, que nós temos tido a tendência de sublinhar a salvação da “alma” com prejuízo da salvação da pessoa na sua totalidade. Só há pouco tempo é que, face às crescentes e descaradas injustiças a nível mundial, que resultaram na falta de dignidade humana para cerca de dois terços da população, é que nos tornámos mais conscientes do elemento “libertação” na evangelização.

As teologias nascentes da libertação têm contribuído para uma compreensão mais integrada da libertação/salvação enquanto dirigidas à pessoa completa, nos níveis político, socioeconómico e espiritual.

As teologias da libertação levam em consideração as estruturas pecaminosas que oprimem as pessoas em todos os níveis. As pessoas precisam de ser libertadas tanto individualmente como socialmente. Esta foi a história da salvação registada pelas Escrituras judaicas.

De facto, salvação e libertação são duas palavras usadas para designarem a mesma coisa: a vinda de Deus em auxílio das mulheres e dos homens para os tirar de toda a forma de opressão e os unir a Ele. A salvação e a libertação têm acontecido desde o princípio e haverão de continuar até que Jesus Cristo esteja todo em todas as coisas. Chamados a ser arautos da salvação e da libertação, a Igreja, tal como cada um dos seus membros, trabalham no mundo para tornar a salvação conhecida e para cumprir a promessa que contém. Quando reina a justiça, as pessoas ficam livres de tudo o que é opressivo a nível espiritual, social, económico, psicológico e físico.

Quando analisamos o que fazemos, é bom perguntarmo-nos, de vez em quando: “Há libertação naquilo que faço?”. Será que isto ajuda as pessoas a libertarem-se? Como membros da Igreja, nós temos sacramentos, catequese, retiros, devoções, etc. Ora, na medida em que estas práticas ajudam a libertar as pessoas daquilo que as oprime, elas fazem parte da práxis libertadora da Igreja. O termo “práxis libertadora” foi introduzido na teologia católica pela Teologia da Libertação.

De acordo com o método da libertação, ou da teologia da libertação, a reflexão realiza-se depois do acontecimento, do qual se não pode separar. O acontecimento, ou série de acontecimentos que interessam à teologia da libertação são aqueles em que se pode identificar uma práxis. A práxis é uma actividade cujo objectivo é transformar a história para melhor. Na abordagem práxica à teologia, a verdade é, antes de mais, algo que se deve fazer e, a seguir, entender. A teologia da práxis pergunta: “Que é que Deus faz?”, ainda antes de perguntar “Quem é Deus?” - e pergunta “Que é que a Igreja faz?”, ainda antes de perguntar “Que é a Igreja?”. Isto significa que uma pessoa chegará a conhecer quem Deus é a partir do conhecimento daquilo que Ele faz - e chegará a conhecer o que a Igreja é a partir do conhecimento daquilo que ela faz.

Não basta dizer que a Igreja é a favor da libertação e da salvação: a Igreja deve mostrar que tem uma práxis de libertação. Ela tem de integrar a experiência da comunidade dos crentes como agente de libertação integral. Em consequência da reflexão sobre a práxis de libertação da Igreja, as pessoas terão uma consciência mais profunda de Quem é o seu Deus Libertador. Se a Igreja não tiver uma práxis de libertação, então a imagem de Deus que as pessoas trazem na cabeça poderá muito bem ser uma imagem distorcida. À práxis autêntica e libertadora dá-se o nome de “ortopráxis”. Ela consiste na colaboração da pessoa com o amor de Deus pelo mundo, na edificação do Reino de Deus. É isto que constitui uma práxis libertadora autêntica. De igual modo, é a colaboração da Igreja com o amor de Deus pelo mundo que constitui a sua práxis libertadora.

As pessoas salvam-se na medida em que são libertadas de tudo o que as oprime. Há necessidade dum discernimento e duma avaliação contínuos nesta procura duma teologia e duma missiologia que nos ajude a realizar a vontade de Deus a respeito do mundo.

2.4.5 Dois Conceitos de Salvação

A reflexão seguinte, apresentada por John Fuellenbach, talvez nos possa ajudar a compreender com maior clareza os dois conceitos de salvação:41

O plano de Deus para a criação tem sido concebido de maneiras diferentes. As duas melhores de que temos conhecimento são as seguintes: a primeira entende a salvação principalmente como uma operação de socorro (deste mundo mau e pecador), de tal forma que os bons são seleccionados e levados para um Novo Céu e uma Nova Terra. Esta concepção encaixa bem na que entende o Reino como uma realidade totalmente transcendente, algo que nada tem a ver com este mundo….A segunda entende o plano de salvação divina de maneira “holística” (ou de totalidade), que inclui a criação toda. Significa uma transformação da realidade na sua totalidade, em vez de um processo de selecção.

Uma visão Individualista da Salvação

O plano divino da salvação, neste caso, é entendido fundamentalmente como algo totalmente “do outro mundo” e transcendente, sem ligação alguma com o mundo actual e as suas dimensões sociais. Poderíamos descrever tal concepção desta maneira:

Deus criou os seres humanos com a intenção de os conduzir, neste mundo, ao seu destino final a que habitualmente designamos por “céu”. Porém, cada pessoa tem de se revelar digna de tal convocação. É por isso que ela é colocada neste mundo, que está permeado de pecado, corrompido e, portanto, perigoso. Este mundo assemelha-se a um imenso campo de testes que foi criado para fornecer às pessoas uma ocasião perfeita para ganhar ou perder a sua salvação eterna. Se a pessoa passar o teste, Deus a recompensará com a vida eterna. Na perspectiva das religiões gnóstica e dos mistérios, os deuses estão empenhados em povoar o Olimpo com algumas almas selectas que foram salvas do mar tempestuoso da matéria e da história humana. A pessoa é encarada como uma unidade fechada em si mesma, uma espécie de Robinson Crusoe a quem Deus dirige a sua convocação como se estivesse numa ilha, e cuja salvação só acontece em termos duma relação com Deus. O que se deixa de lado é o facto de nenhuma pessoa ser uma ilha, viver isolada. Ora, não é possível falar de salvação sem se fazer referência ao mundo de que fazemos parte.

Uma visão deste tipo tem, naturalmente, uma espiritualidade correspondente, cuja única preocupação é a salvação da própria alma. Nesta concepção, a salvação é totalmente individual e privada de qualquer ligação ao próximo, a este mundo e ao seu destino. A história, com o seu fluxo contínuo de pessoas e culturas, não tem significado algum. As realizações humanas neste mundo não têm nada a ver com o mundo que há-de vir. Elas todas haverão de desaparecer no momento em que chegarem o Novo Céu e a Nova Terra. Não ficará rasto algum delas para a nova criação. Este mundo não tem interesse. Ele não tem importância alguma, sejamos nós ricos ou pobres, doentes ou sadios, gente de estimação ou gente de casta baixa. A única coisa que importa é aguentar o teste e ir para o céu, independentemente daquilo que façamos neste mundo. Mas será esta concepção do plano de Deus a versão correcta?

Uma Visão Universalista da Salvação

Ao contemplarmos os Sinais dos Tempos, nós encontramos na Sagrada Escritura algumas imagens do “mundo que há-de vir” que nos permitem ter uma interpretação diferente. Neste caso, o plano de Deus para o mundo é percepcionado não em termos duma destruição total da criação mas em termos duma transformação ou transcriação.

O “Novo Céu e a Nova Terra” significam este mundo-transformado, renovado, purificado e feito novo. É este velho e corrupto mundo, permeado de pecado - um mundo tão cheio de ódio, egoismo, opressão, desespero e sofrimento - que será objecto de transformação. Tornar-se-á algo totalmente novo. O nosso mundo é a arena onde o plano final de Deus para o mundo se vai desenrolar. O “Reino de Deus” acontece aqui, no meio dos negócios humanos. Tem a ver com este mundo aqui-e-agora. E já aconteceu diante dos nossos olhos, só que a sua plenitude ainda está para vir.

Se aceitarmos esta concepção do plano de Deus para a criação, toda a nossa concepção da salvação mudará também. Ser salvo não significa ser retirado deste mundo e ser transferido para outro lugar. Ser salvo quer dizer continuar a fazer parte da criação como um todo, a qual foi transformada em “Novo Céu e Nova Terra”. Eu serei salvo porque a criação como um todo será salva. A minha salvação está embutida na salvação de todos os seres humanos. É porque os meus irmãos e irmãs serão salvos que eu serei salvo, visto que formo uma unidade com eles. Estritamente falando, nós não podemos falar de salvação individual por estarmos ligados por milhares de laços uns com os outros e com a totalidade da criação.

Para reflectires…

Thich Nhat Hanh, poeta vietnamita e monge budista, faz uma descrição da nossa pertença à realidade global total nos seguintes termos:

“Eu sou a criança do Uganda, pura pele e osso, de pernas tão finas como canas de bambu, e eu sou os braços do comerciante a vender armas mortíferas ao Uganda.

Eu sou a menina de 12 anos, uma refugiada numa casca de noz, que se atira para o oceano depois de ter sido violada por um pirata do mar, e eu sou o pirata, com coração ainda incapaz de ver e de amar.

Eu sou um dos membros do politburo, com imenso poder à disposição, e eu sou o homem que tem de pagar a sua “dívida de sangue” ao meu povo, a morrer devagarinho num campo de trabalho forçado.

A minha alegria é como a primavera, tão quentinha que faz as flores desabrochar em todos os caminhos da vida. A minha dor é como um rio de lágrimas, tão cheio que enche os quatro oceanos.

Por favor, chamem-me pelos meus verdadeiros nomes, para eu poder ouvir todos os meus soluços e as minhas risadas ao mesmo tempo, para eu poder ver que a minha alegria e a minha dor são uma só e mesma coisa.

Por favor, chamem-me pelos meus verdadeiros nomes, para eu poder acordar e para a porta do meu coração poder ficar aberta, a porta da compaixão”.

(Thich Nhat Hanh, in E. Roberts & E. Amidon, Earth Prayers (Orações da Terra), pp.12-13)

Para Reflexão Pessoal e Debate de Grupo

Parábola: O QUEBRA-CABEÇAS DO MAPA-MUNDI42

Disseram a uma criança para pôr em ordem as peças duma enorme “paciência” do mapa-mundi.

Por mais que tentasse, não conseguia. Foi então que alguém lhe deu uma dica. Disse-lhe essa pessoa: “Olha para a parte de trás das peças do mapa quebra-cabeças. Também lá encontrarás as peças do desenho dum homem adulto completo. Primeiro, procura combinar as peças do homem quebra-cabeças”. A criança fez exactamente como lhe fora dito e, assim, conseguiu completar a figura do homem. Resultou na imagem dum homem bonito e sorridente.

E…maravilha! - por detrás da imagem do homem podia ver-se o desenho do mapa do mundo em perfeita ordem.

  1. Será que um mundo dividido, com tantos problemas, interesses, e facções terá hipótese de se unificar? Porquê? Qual seria o primeiro passo para a paz e a harmonia mundiais? Porquê?
  2. Podem as estruturas mundiais - económicas, sociais, políticas, religiosas, étnicas, etc. - ser colocadas em ordem sem contar com os seres humanos? Porquê?
  3. Como é que se poderia procurar resolver as divisões que existem entre as pessoas do mundo inteiro?
  4. Em primeiro lugar, que é que Cristo veio mudar: as pessoas ou as estruturas do mundo?
  5. Quem criou as estruturas do mundo? Como?
  6. Que poder têm as estruturas sobre as pessoas?
  7. Que é que tem de ser posto em ordem primeiro: o coração das pessoas ou as estruturas do mundo? Será possível? Como fazê-lo?
  8. Que é que se entende por “pecado estrutural”?

2.4.6 A Teologia da Vida43

“Eu vim para que tenhais vida e vida em abundância” (Jo 10:10). Estas palavras de Jesus fazem-nos lembrar as palavras de Jeremias quando ele revelou o amor incondicional e misericordioso de Javé pelo seu povo: “Bem conheço os desígnios que tenho acerca de vós - oráculo do Senhor - desígnios de prosperidade e não de calamidade, de vos garantir um futuro de esperança. Invocar-me-eis e vireis suplicar-me e eu vos atenderei. Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o coração. Deixar-me-ei achar por vós - oráculo do Senhor - farei regressar os cativos e irei buscar-vos a todas as nações e a todos os lugares por onde vos dispersei - oráculo do Senhor - a fim de vos fazer voltar ao lugar donde vos lancei fora” (Jer 29:11-14).

Também nós precisamos de cumprir a nossa parte na perspectiva dum futuro novo - para nós próprios enquanto indivíduos e para o nosso mundo. Ouçamos este testemunho que veio da Índia:

“Os pobres da Índia de hoje não são apenas uma turba desgraçada e passiva. Eles estão a organizar-se em grande para resistir, para afirmar e para reivindicar a sua porção de justiça. Eles estão a tornar-se conscientes da dimensão estrutural da sua pobreza, das possibilidades de mudança, dos seus direitos e do tremendo potencial da sua força colectiva. Esta erupção dos pobres ameaça desestabilizar a própria base da sociedade Indiana - o sistema de castas e o do patriarcado - e apresenta sinais novos de esperança. Portanto, este é o momento oportuno para a Igreja decidir se vai ficar do lado dos poderosos por amor à sua própria sobrevivência e segurança , ou se vai ficar do lado dos pobres na sua caminhada histórica para uma nova Índia feita de justiça e vida para todos. Precisamos de ser parceiros dos pobres no cumprimento da missão de Deus.

“Ao contemplarmos os processos de marginalização e os métodos, tanto evidentes como escondidos, da marginalização na sociedade, baseada na língua, na raça, na etnicidade, na casta, na classe, no género, na idade, na religião, na regionalidade, etc., nós precisamos de garantir a ausência de todas estas realidades do seio das nossas Igrejas…

“…É neste contexto que uma teologia comprometida com a vida inspira esperança à Igreja Indiana. Esta Teologia da Vida afirma a opção de Deus pelos pobres ao desafiar os valores do mundo por meio dos valores do Reino de Deus, tal como Cristo no-los ensinou. Isto equivale a mudar os nossos estilos de vida e estruturas. Mas também implica fazer uma redescoberta da Igreja em termos locais e, essencialmente, em termos das pessoas, e não em termos de hierarquia e estruturas. É que a Teologia da Vida é uma teologia da partilha e dos relacionamentos justos. Ela exige uma reorientação dos relacionamentos baseada no entendimento correcto da nossa fé. Ela obriga a uma reordenação radical dos nossos estilos de vida, atitudes e estruturas nas relações humanas de comunidade. Sermos justos e humanos é uma escolha moral e espiritual consciente que temos de fazer no contexto da vida em comunidade.

“…A nova “ecclesia” afirma uma espiritualidade que confronta e supera todas as forças que negam a vida e que luta pela construção duma comunidade baseada no amor de Deus, na justiça, na paz e na integridade da criação”.

2.4.7 A Teologia do Feminino

Reflexão tirada das Escrituras Hebraicas:

Um grupo completo de mulheres foi convocado para garantir que Moisés se tornasse aquilo que Deus tinha planeado que fosse: o chefe do seu povo. Quem era esta gente que possibilitou a Moisés tornar-se o servo escolhido de Deus? Havia uma teia completa de mulheres que garantiram a vida de Moisés para que pudesse cumprir o plano de Javé.

Shiprah e Puah, as parteiras hebraicas no Egipto, eram mulheres tementes a Deus e, elas próprias, mães. Desobedeceram às ordens do Faraó para que se matassem todos os bebés de sexo masculino que tivessem nascido de mulheres hebraicas, fazendo, assim, com que o número de Judeus aumentasse. Talvez tenham sido elas a salvar Moisés (Êx 1:15-22). Embora fossem escravas, elas não se deixaram intimidar pelo rei e pela sua corte.

A filha do Faraó: Ela salvou Moisés da sua cesta nas margens do rio Nilo e criou-o na casa real até à idade adulta (Êx 2:2-10). Ela é símbolo duma pessoa de autoridade a tomar a iniciativa de ultrapassar uma lei injusta.

A Mãe de Moisés: Ela desafia o Faraó e amamenta o seu bebé durante alguns meses. Quando ele atinge os três meses de idade, ela esconde-o na cesta e coloca-o no rio Nilo.

Miriam, a irmã de Moisés, que “ficou de longe a ver o que lhe iria acontecer”. Quando a filha do Faraó deu pela cesta e encontrou o bebé, Miriam saiu do seu esconderijo e tomou posição, oferecendo-se para ir procurar uma ama para o bebé , e foi buscar a sua mãe.

Ao reflectirmos sobre a nossa vocação, não deveríamos esquecer a “rede” de pessoas implicadas na sua realização. Para podermos apreciar mais a fundo a nossa chamada ao seguimento de Jesus, é útil perguntarmo-nos de vez em quando: quais foram as pessoas que Deus colocou à minha volta para garantir a minha escolha logo desde o seio de minha mãe?44

Reflexão tirada do Evangelho de São João:

Há sete ocasiões no Evangelho de São João em que uma mulher cumpre um papel importante na comunidade e na pregação da Boa Nova:

  1. Maria, nas bodas de Caná (2:1-11). Ela indica a lei principal do Evangelho: “Fazei tudo o que Ele vos pedir”.
  2. A mulher samaritana torna-se a evangelizadora da sua terra (4:1-42). Ela é a primeira a receber de Jesus o grande segredo: o da sua identidade de ser o Messias: “Sou Eu, O que fala contigo” (4:26).
  3. A mulher adúltera, na altura em que é perdoada por Jesus, torna-se juíza da sociedade patriarcal ( ou do poderio masculino) que a condenara (8:1-11).
  4. Marta confessa a sua fé no Messias, o Filho de Deus. Nos outros Evangelhos, a pessoa que faz esta solene profissão de fé é Pedro (Mt 16:16). No Evangelho de João, a pessoa que faz esta profissão solene de fé é uma mulher, Marta (11:27).
  5. Maria unge os pés de Jesus para o dia do seu enterro (12:7). Ela foi a única pessoa que entendeu e aceitou Jesus como Messias-Servo destinado a morrer na cruz. Uma pessoa que morresse na cruz não podia ser enterrada ou embalsamada. Por esta razão, Maria actuou antecipadamente e ungiu o corpo de Jesus. Ela é o modelo para os outros discípulos. Pedro não tinha aceitado Jesus como Messias-Servo (13:87).
  6. Aos pés da cruz, as palavras “Mulher, eis o teu filho”; “Eis a tua mãe” (19:25-27). A Igreja nasceu aos pés da cruz. Maria é o modelo da comunidade cristã.
  7. Maria Madalena é convocada para anunciar a Boa Notícia aos seus irmãos (20:11-18)). Ela recebe uma ordem - uma “ordenação” - sem a qual todas as outras ordenações dadas aos apóstolos não teriam tido valor algum.

Nestas sete ocasiões é sempre uma mulher que é apresentada de forma positiva. Ela ajuda Jesus na descoberta e no cumprimento da sua missão. As dores do parto são o símbolo do sofrimento que traz à luz uma nova vida (16:21)45

2.4.7.1 A Teologia do Eco-Feminismo

O primeiro capítulo do Génesis (v. 27) afirma claramente que os seres humanos - tanto machos como fêmeas - foram criados à imagem de Deus. No mesmo capítulo também se lê que “todas as plantas de semente e todas as árvores de fruto com semente” serviriam de alimento aos seres humanos (v.29). Toda a folhagem das plantas serviria de alimento para os animais selvagens, para as aves, e para todas as criaturas vivas que se arrastam pelo chão (v.30). Se desde o princípio estes versículos da Bíblia tivessem sido interpretados de forma correcta, as mulheres e o ambiente não teriam sofrido violência e destruição. Infelizmente, o capítulo 2 do Génesis (vv. 21-24) e certas leis que se encontram no Levítico e no Deuteronómio foram interpretadas de tal maneira que deram aos homens plenos poderes sobre as mulheres e a natureza (terra e animais). Naturalmente, isto deveu-se à influência de outras sociedades patriarcais daquele tempo sobre a cultura hebraica. Importa fazer notar que, na cultura hebraica, também havia leis para proteger a terra de qualquer exploração excessiva (Lv 25:3-8).

No capítulo 9 do Génesis, fala-se da Aliança feita com Noé, que inclui todas as criaturas vivas (vv. 9-17).

No capítulo 23 do Êxodo, a lei manda que, no sétimo dia, todos devem descansar, incluindo “a escrava, o seu filho, o forasteiro, o boi e o burro) (v.12).

No capítulo 25 do Levítico, encontramos o conceito bíblico de “Jubileu”, que determina que, cada 50 anos, todos os relacionamentos entre os seres humanos e a natureza, tal como os relacionamentos entre os próprios seres humanos devem ser “rectificados”. O conceito de Jubileu tem uma dimensão socioecológica e espiritual.

O tema do Novo Testamento do “cosmos” como Corpo de Cristo pode ser encontrado em algumas das cartas de Paulo (Col 1:15-20).

A crise ecológica actual acordou-nos para a urgência de se procurar uma teologia nova que trate de toda a criação e da necessidade duma espiritualidade cósmica. As religiões do mundo, incluindo as religiões tradicionais africanas e as dos povos indígenas têm um grande contributo a dar a esta nossa procura. São Francisco de Assis, o padroeiro da ecologia, continua a ser a nossa inspiração para uma visão duma comunidade cósmica que inclui seres humanos, plantas, animais, o sol, a lua, e toda a criação divina.

2.4.8 Breve Reflexão sobre a Economia na Bíblia e no Cristianismo:46

“Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância”
Jn 10:10

Os temas económicos perpassam por toda a Bíblia. A Torah, ao regulamentar a compra e venda de bens, o cultivo da terra e a criação de animais, colocou toda a actividade económica dentro da relação de aliança entre Deus e Israel. Isto inclui a preocupação com os pobres (Êx 23:6, Deut 15:7-11, com o forasteiro (Êx 21:21-24, com as viúvas e os órfãos (Deut 24:19-22) e com o ambiente (Lv 25:1-8). A ordenança do Ano Jubilar (Lv 25:8-55) tinha por objectivo criar um momento de libertação das dificuldades económicas da escravidão e da pobreza, e dar origem a um novo começo.

Os assuntos económicos reaparecem nos Profetas. Amós alerta para o desastre, porque Israel tinha “vendido a rectidão a preço de prata e os necessitados por um par de sandálias”, e tinha “espezinhado a cabeça dos pobres no pó da terra” (Am 2:6-7). Isaías condenou aqueles “que acumulam casas, campos, até não haver mais espaço e as pessoas acabarem por viverem sozinhas no meio da terra” (Is 5:8). Também Jeremias condena “aquele que constrói a sua casa mediante a prevaricação e seus andares mediante a injustiça; que obriga o seu vizinho a servi-lo de graça e não lhe paga o salário” (Jer 22:13).

Jesus não é menos directo: “Ninguém pode servir a dois senhores: vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6:24. O jovem rico foi convidado a vender tudo o que tinha e a distribuí-lo pelos pobres, para provar que tinha real vontade de herdar a vida eterna (Lc 18:18-30).

Na parábola do homem rico e Lázaro, o homem rico é condenado, não por qualquer acto de descarada crueldade, mas simplesmente por não ter ligado ao pobre que estava ao seu portão. (Lc 16:19-31).

Os Padres da Igreja também mostram uma preocupação constante pelos direitos dos pobres, uma convocação firme à aceitação da responsabilidade pelos necessitados, e avisos muito fortes contra a tentação pela riqueza.

Depois de Constantino, A Igreja veio a exercer um papel de liderança significativa na sociedade. Embora não tivesse ficado ilesa das tentações da riqueza e do poder, ela tentou, no entanto, desenvolver formas de serviço à comunidade: hospitais, escolas, centros de aconselhamento, frequentemente através dos mosteiros - que, em grande parte cresceram em protesto contra as condições da vida urbana, como alternativa a restabelecer a ordem na economia duma comunidade.

Na Idade Média, na Europa, os cristãos já havia muito que se tinham acomodado às atitudes e hábitos dominantes. Alguns movimentos, tais como o dos Franciscanos e o dos Valdenses, acabaram por surgir entre os cristãos para fazer lembrar as prioridades de Jesus e dos profetas, apelando ao serviço e respeito pelos pobres.

Tanto Lutero como Calvino lutaram para descobrir maneiras especificamente cristãs de tratar e regular o comportamento económico que estava a conquistar cada vez maiores esferas de poder nas indústrias modernas e no comércio, para além das fronteiras nacionais e geográficas. Nenhum deles teve êxito: o poderio económico (os governantes, os banqueiros, os fabricantes e os comerciantes) foram desenvolvendo cada vez mais as suas próprias “normas”, alguns deles até mesmo acreditando que a riqueza que estavam a produzir era um sinal de bênção divina, contra a mais “oficial” doutrina da Igreja.

Quando a economia surgiu como ciência, a distinção clara entre o “secular” e o “sagrado” apresentou ao entendimento cristão da prioridade da vontade de Deus para a sociedade um desafio deveras crítico.

Christian Faith and the World Economy,WCC
(A Fé Cristã e a Economia Mundial),Conselho Mundial das Igrejas

2.5 UMA ESPIRITUALIDADE DA JPIC: O ASPECTO CONTEMPLATIVO

As declarações teológicas tornam-se coisas vivas quando resultam duma reflexão sobre a experiência humana à luz da verdade revelada e, depois, levam a um certo tipo de comportamento e compromisso das pessoas. Hoje em dia, sabemos que existe uma unidade entre essas duas ideias. Elas fazem parte dum ciclo que vai desde a experiência à reflexão, ao compromisso e, de novo, à experiência e assim sucessivamente. Desde o Concílio Vaticano II, o antiquíssimo método da lectio divina fez uma reentrada na vida dos cristãos, dando-lhes uma maneira de unir a fé à vida mediante a leitura rezada e comprometida das Escrituras Sagradas. Esse método consiste em ler a palavra, reflectir nela no contexto do que está acontecendo na vida de cada um, e, depois, aceitar as implicações e as exigências dessa palavra na vida corrente. O mesmo método pode ter aplicação na maneira como encaramos a própria vida. Nós observamos com atenção, perguntamo-nos qual é o significado daquilo que vemos e aceitamos as implicações e as exigências daquilo que a nossa reflexão nos diz. Tal é o nosso objectivo: olhar com fé para o que está a acontecer no mundo, de tal maneira que esse olhar nos une num entendimento e objectivo comuns e, depois nos leva ao tipo de compromisso que resultará em alegria para todos, uma alegria que é a experiência dum relacionamento correcto e que é a maneira como entendemos a justiça e a paz. Nós andamos à procura duma abordagem dinâmica da vida e dos desafios de cada dia (GS n.º5).

A espiritualidade é uma questão de educação do coração.
A espiritualidade implica um processo de transformação.

“Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos
pela renovação do vosso espírito,
para que possais saborear o que é a vontade de Deus,
o que é bom, aceitável e perfeito”.

Rom 12:1-2

A espiritualidade dá origem a um modo de vida e, por sua vez, é o resultado dum modo de vida. Um modo de vida é santo quando é criado pelo Espírito Santo e corresponde aos valores do Evangelho. Os modos de vida variam conforme o conjunto de valores sobre que assentam. Neste mundo, nenhum modo de vida consegue incluir todos os valores do Evangelho de forma plena e ao mesmo tempo. A “espiritualidade” é o nome que se dá à síntese dos valores do Evangelho que se realiza numa pessoa ou comunidade. Uma dada espiritualidade re-ordena os valores do Evangelho de acordo com o tempo e as circunstâncias em que nasce e se desenvolve.

É esta a razão de as congregações religiosas serem diferentes umas das outras, embora o seu fim último seja o mesmo. A procura da justiça é a mesma para todas as formas de vida cristã. Os modos de entender a justiça e de a seguir serão diferentes de pessoa para pessoa, de lugar para lugar, e de comunidade para comunidade.

Para uma Reflexão Pessoal

O TESTEMUNHO DE DOM FRANÇOIS XAVIER NGUYÊN VAN THUAN47

“Como o trabalho pela justiça e pela paz afectou a minha espiritualidade”

Dom Francisco foi nomeado Bispo pelo Papa Paulo VI em 1967. Assumiu como moto o nome da Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo, Gaudium et Spes. Seria este o fundamento da sua planificação pastoral para os próximos oito anos. Pouco antes de a guerra no Vietnam acabar, foi nomeado Bispo de Saigão. O novo governo interpretou mal a sua nomeação - faria certamente parte duma conspiração. Por isso, foi preso. Acabaria por passar os próximos treze anos na cadeia. Ao ser libertado, em 1988, ele passou três anos no Vietnam, mas não podia voltar a Saigão como Bispo. Veio para Roma em 1991 para ocupar a posição de Vice-Pesidente do Conselho Pontifício para a Justiça e a Paz.

No meio de tais mudanças, que terá permanecido constante nele e terá dado unidade e harmonia à sua vida? Foi a inspiração que lhe vinha da Gaudium et Spes. A sua primeira parte trata da vocação humana. A segunda faz uma listagem das cinco áreas principais de maior preocupação para a Igreja. Suas foram também essas preocupações durante todos este anos. Mas houve uma coisa que, acima de todas as outras, o convenceu: aquilo que temos a oferecer aos outros é o testamento de Jesus - a Palavra, o Corpo e o Sangue, a Paz e o novo mandamento do Amor “que todos sejam um”. Foi isto que o alimentou durante todos estes anos.

Durante os treze anos que passou na cadeia, houve dois longos períodos de incomunicabilidade: um que durou dois anos e outro, seis. Ele fora preso e condenado sem julgamento. Nos períodos de incomunicabilidade, esteve sempre sozinho, à excepção da companhia de dois guardas que nunca o deixavam. Não tinha livros nem jornais. Todos os dias, de manhã cedo até altas horas da noite, um altifalante lá do pátio trovejava uma infindável ladainha de propaganda. Este género de tortura mental continuou dia após dia. Ter de ir para a cadeia é sempre uma sentença horrível, mas é muito pior quando a cadeia fica num país pobre, e é péssima quando esse país pobre tem governo comunista. Ele descobriu, no entanto, que a resposta estava no amor.

Na prisão, havia sempre um corre-corre de guardas. Ele conseguiu conquistá-los pelo compromisso ao amor. A certa altura, as autoridades disseram que já não iam mudar mais de guardas porque “este padre está a contaminá-los todos”.

A princípio, os guardas manifestavam sempre pouca inclinação para falar com ele. Mas ele derrubou essa barreira pouco a pouco ao falar-lhes do mundo que ele conhecia, que era um mundo bem diferente do deles. Ensinou francês a alguns. Ele sabia que estes homens nunca poderiam aceitar a fé cristã. Vinham de famílias que tinham dado provas de lealdade ao governo; senão, não poderiam ter chegado a ser guardas. Apesar de tudo, Dom François Xavier que eles tinham mudado por dentro, através da força do amor.

No princípio, ele pediu que lhe trouxessem um frasco de remédio para as dores de estômago. O frasco veio, mas com um rótulo que dizia “remédio para o estômago” - que era afinal vinho de missa. Todos os dias, com três gotas de vinho e uma de água na palma da mão, ele celebrava a Eucaristia. Com o tempo, a sua assembleia também aumentou. No pátio, enquanto se faziam os exercícios, ele passava sinal aos seus sequazes de que ia dirigir a oração. Nunca foi traído por ninguém do grupo. Mandaram alguns outros para espiá-lo. Até mesmo esses, na altura de apresentarem o relatório, guardaram o segredo.

Num período de incomunicabilidade, foi colocado numa cela ao fim do corredor. Não havia janelas naquela cela. Entre ele e a luz do sol ficava aquele enorme corredor e duas ou três enormes portas. Na escuridão da sua cela sem ar, ele acabou por descobrir um pequeno buraco na parede. Dia a dia, ele deitava-se no chão com o nariz ao buraco só para apanhar um pouco de ar. E assim foi por meses a fio.

Agora, na sua nova posição em Roma, a sua missão continua: ele sabe bem o que significa ser tratado injustamente, e ele sabe que a sua missão ainda é uma missão de amor. A princípio, só conseguia ver uma montanha de papéis em cima da sua mesa dia a dia - e começou a magicar sobre o que poderia fazer neste tipo de emprego de escritório. Depois começou a notar que cada uma daquelas folhas de papel representava a vida de gente verdadeira, gente necessitada. Assim descobriu a maneira de se adaptar à sua nova missão. Agora, parece um missionário muito pacífico no centro de Roma. Ele tem admiração pelas pessoas com quem trabalha no Conselho Pontifício. Com a sua idade, ele sente que talvez devesse ter-se demitido há muito tempo, consciente de ter feito o seu dever e de ter já dado o seu contributo. Mas não. A Missão nunca acaba.

2.5. A LITURGIA: A JUSTIÇA E O CULTO

A Liturgia é a expressão da nossa relação com Deus e é a fonte e o fruto da nossa relação com as pessoas e o resto da criação.

Os profetas, especialmente Isaías (1:11-17) e Amós (5:21-25), denunciam, com toda a clareza, as celebrações litúrgicas que não têm coerência com uma vida de justiça.

Nos nossos esforços por dar significado à liturgia e por torná-la uma inspiração para a nossa vida de JPIC, nós temos uma necessidade constante de trazer à memória o facto de Jesus nos ter convidado a celebrar em sua memória: “Fazei isto em minha memória”. Mas fazer o quê - em sua memória? Dizer as palavras que Ele disse, da maneira como as disse, fazer gestos de amor e compaixão da mesma maneira que Ele fez. É quando estas palavras e gestos se tornam VIDA que nós nos tornamos EUCARISTIA. Cada celebração da Eucaristia ajuda-nos a tornarmo-nos Eucaristia porque:

  • Nós pedimos perdão por não vivermos relacionamentos correctos no nosso dia a dia.
  • Nós agradecemos a Deus pelos momentos em que fomos capazes de viver tais relacionamentos.
  • Nós intercedemos por nós próprios e por todo o Cosmos a fim de podermos promover relacionamentos correctos em recordação de Jesus.

Em cada celebração Eucarística, nós partilhamos, na fé, do pão Eucarístico, a fim de , também nós, e em lembrança de Jesus, podermos tornar-nos “pão partido, partilhado e oferecido” para a transformação deste mundo.

As palavras e os gestos de Jesus na última ceia, vistas do ponto de vista de São Marcos (14:22), São Mateus (26:26), São Lucas (22:19), São João (13:1-15) e São Paulo (1Cor 11:17-33), são um convite a:

  • Celebrar as nossas liturgias numa relação íntima com as nossas realidades diárias;
  • Celebrar as nossas liturgias em Sua memória vivendo como Ele, revelando amor, perdão e compaixão.

O cristão é uma pessoa da Eucaristia. A Eucaristia é um verbo, antes de ser um substantivo. Jesus convida-nos a “Fazer isto em memória de mim”. Que é que Jesus quis dizer quando nos pediu para celebrarmos em Sua memória? Jesus não está interessado apenas num ritual religioso. Jesus quer que VIVAMOS como Ele viveu. Importa que nós, como comunidade profética, SEJAMOS JESUS, SEJAMOS EUCARISTIA para estes nossos tempos. É assim que O lembramos.

Quando a Mãe de Tiago e de João queria posições para os seus dois filhos no Reino de Deus, Jesus só teve uma resposta para o desejo que ela manifestou: “Serão eles capazes de beber o cálice que eu tenho de beber?”. No jardim das oliveiras, naquela noite que antecedeu a sua morte, Jesus clamou ao Pai em alta voz: “Afasta de mim este cálice…”. O cálice é uma vida esvaziada a favor dos marginalizados e dos pobres. O cálice que temos de beber é uma vida despejada a favor do outro. Infelizmente, muitas das nossas celebrações continuam a ser rituais “domesticados”. Não foi essa a intenção de Jesus.

O pão que se parte é uma vida que se parte, para que os outros possam viver. Quando Jesus tomou o pão e o abençoou, isso foi um sinal de que o que estava a acontecer a este pão iria acontecer, mais tarde, à Sua vida que se esvaiu na cruz.

Portanto, a Eucaristia é, antes de mais, um modo de vida que recebe o seu sentido de pertença no ritual de partir o pão e beber o cálice. Mas o partir do pão e o beber do cálice têm de estar apoiados numa vida esvaziada e quebrada a favor do outro, especialmente do marginal e do pobre.

“Se algum sacramento representa a cristandade e a Igreja na totalidade, é precisamente a Eucaristia. Porque ela é o sacramento que, por excelência, simboliza em pleno aquilo que a mensagem cristã é, e o que ela significa para o mundo. Na verdade, ela aponta para o mundo e para a criação toda. Ela é a presença de Deus no mundo. Ela é a cruz e a ressurreição. Ela é o perdão dos pecados e a reconciliação”48

O termo “Eucaristia” também significa “Muito Obrigado!”. Nós somos convidados a agradecer pelo que temos realizado. Pedimos força e perseverança. Ela é salvação e a nova criação. Ela é “Shalom”. Ela é celebração. Celebração quer dizer saber que nem tudo depende de nós. Como cristãos, nós somos chamados a viver agora, na nossa vida, a esperança do futuro. Muitas vezes, as pessoas envolvidas no trabalho da JPIC levam a vida tão a sério como se a realização do Reino de Deus só dependesse deles. Ora nós precisamos de ser capazes de celebrar. Nós não somos chamados a ter êxito mas a ser fiéis à convocação de Jesus a sermos Eucaristia. O compromisso autêntico com a JPIC ajuda-nos a ser Eucaristia.

Perguntas para ajudar a reflectir sobre a ligação entre Liturgia e JPIC

  • Temos a tendência para institucionalizar as nossas liturgias e, assim, evitar a flexibilidade, a criatividade e as liturgias com significado?
  • Temos a oportunidade de preparar liturgias que são capazes de dar vida e inspiração aos participantes? Se a resposta for afirmativa, partilhamos das nossas experiências com outros? Como? Se a resposta for negativa, quais são as dificuldades para tal? Pode fazer-se algo para as superar?
  • O nosso compromisso com a JPIC alcança profundidade nas nossas celebrações? Como? Em virtude do nosso compromisso com a JPIC, somos capazes de preparar/celebrar liturgias mais significativas?

2.7. REFERÊNCIAS BÍBLICAS SOBRE TEMAS DE JPIC49

Eis algumas referências Bíblicas sobre:
Justiça, Mulheres, Libertação, Opressão, Paz, Perdão-Reconciliação- Misericórdia, Pobres, Partilha-Solidariedade, Fraternidade, Diálogo--Ecumenismo, Serviço-Caridade e Natureza-Criação.

1. JUSTIÇA

  • Êx 23:6
  • Dt 15: 7-11; 16:20; 27:19
  • Lv 19: 12-18
  • Jb 29:14
  • Salmos 9:8,16; 11:7; 33:5; 72; 89:14; 103: 6; 140:12
  • Provérbios 21:15; 29:4,7
  • Jr 9:23-24;22:15-16; 23:5
  • Isaías 1:10-20; 5-23; 10:2; 29:21; 30:18; 32:15-20; 42:4; 61:8
  • Oseias 12:6
  • Amós 2:7; 5:12
  • Malaquias 2:17
  • Mateus 5:20; 23:23; 25: 31-46
  • Lucas 3: 10-14; 11:42; 18:8
  • Actos 4: 32-37
  • Romanos 3: 25-26

2. MULHERES

  • Juízes 4:5
  • Judite 8:4-8; 9: 8-10
  • Ester 4: 12-14; 17l-17m..17m-17s; 5:1-3, 7-8
  • Rute 1: 16-18; 2:8-13; 4:9-17
  • Leitura de Mateus 16:17 e João 11:27 juntos
  • Marcos 14:9
  • Lucas 7: 36-50; 10: 38-42; 21: 1-4
  • Actos 2: 17-18; 21:8-9
  • Gálatas 3:28

3. LIBERTAÇÃO

  • Êxodo 2: 23-25; 3: 1-15
  • Deuteronómio 25: 5-11
  • Salmos 9:3-4; 10:18; 12:5; 74:14; 103-6
  • Miqueias 3:4
  • Baruc 4:21
  • Lucas 4:18
  • Gálatas 5: 1, 13

4. OPRESSÃO

  • Êxodo 1:11
  • Deuteronómio: 26:6; 28:33
  • Neemias 6: 3-10; 17:9-12; 44: 22-25; 94: 5-6
  • Salmos 6: 3-10; 17:9-12; 44: 22-25; 94: 5-6
  • Jeremias 50:33
  • Miqueias 3:3

5. PAZ

  • Levítico 19: 1, 9-18
  • Salmos 32; 72; 85: 9, 11; 122:6-8
  • Isaías 2:1-5; 9:5-6; 1-9; 32:15-20; 52:7; 53:5; 57:19
  • Provérbios 24:1-4, 22-31
  • Mateus 5:1-12, 38-48; 10:5-13, 34
  • Lucas 10:35; 12:51; 24:36
  • João 14:23-27; 19:19-23; 20:19, 21
  • Romanos 12:18; 14:17,19
  • 2Coríntios 3:11
  • Efésios 2:11-18; 4:3,31-32
  • Gálatas 5:22
  • Filipenses 2:5-11
  • Tiago 3:13-18

6. PERDÃO-RECONCILIAÇÃO-COMPAIXÃO

  • Ezequiel 11:17-21
  • Mateus 7:1-5; 18:21-35
  • Lucas 6:27-38; 15:1-10
  • Romanos 5:11
  • 2Coríntios 5:14-21
  • Efésios 2:14-18
  • Colossenses 3:12-17
  • Filémon 1:8-21
  • 1Pedro 3:8-12

7. POBRES

  • Êxodo 1:8-14; 22:20-26
  • Deuteronómio 15:4-11; 24:10-22; 26:5-11
  • Levítico 19:9-18; 25:8, 10, 23-24, 35-38, 42-43
  • Salmos 9:13-14, 19; 12:6; 14:6; 18:28; 22:27; 25:9, 16; 35:10; 37:11;69:30
  • 70:6; 72:1-4, 12-14; 74: 19-20; 76:10; 140:13
  • Isaías 1:11-17; 5:1-23; 11:1-9; 58:5-7; 61:1-2
  • Jeremias 22:13-18
  • Amós 2:6-16;3:14-4:3; 8:4-7
  • Miqueias 2:1-5; 3:1-4, 9-12; 4:6-7
  • Sofonias 3:11-12
  • Eclesiástico 34:18-22
  • Marcos 10:17-22; 10:23-27
  • Mateus 10:9-10
  • Lucas 1:46-56; 12:33-34
  • Actos 2:44-45; 4:32, 34-35; 11:27-30
  • 1Coríntios 1:17-31
  • 2Coríntios 8:1-15; 9:6-13
  • Filipenses 2:5-9
  • Tiago 2:1-5; 4:13-5:6

8. PARTILHA-SOLIDARIEDADE

  • 1Reis 17:7-16
  • Isaías 58: 1-12
  • Marcos 12:38-44
  • Mateus 25:31-46
  • Lucas 1:46-55;10:25.37, 16:19-31
  • Actos 4:32, 34-35
  • Filipenses 2:4-11
  • Hebreus 13:12-16
  • Tiago 2:14-18; 5:1-6
  • Apocalipse 21:1-6

9. FRATERNIDADE

  • Provérbios 3.27-33
  • Mateus 12:46-49
  • João 17:1,6-11,20,26
  • Hebreus 2:10-17
  • 1Pedro 2:12; 3:8-9, 13-16
  • 1João 4:4-21

10. DIÁLOGO-ECUMENISMO

  • Génesis 17:1-7
  • Isaías 34:1-3
  • Mateus 10:41-45, 18:12-19; 22:1-10
  • João 17:18-24
  • Actos 2:1-11
  • 1Coríntios 12
  • Efésios 1:3-14
  • Colossenses 3:12-17
  • Hebreus 2:8b-12
  • 1Pedro 4:7-11

11. SERVIÇO-CARIDADE

  • 1Reis 17:7-16
  • Eclesiástico 4:1-10
  • Mateus 10:35-45
  • Lucas 10:25-37
  • João 13:1-17, 34-35; 15:9-17
  • Romanos 12:9-17
  • 1Coríntios 13:1-13
  • Filipenses 2:1-4
  • 1Pedro 4:7-11

12. NATUREZA-CRIAÇÃO

  • Génesis 1:1-2:3; 9:9-11
  • Êxodo 3:7-10; 15:22-27; 23:10-12
  • Levítico 25:1-24
  • Isaías 11:1-9; 40:12-31
  • Daniel 3:57ss
  • Salmos 8; 19; 24; 104;:16-23; 136; 148:1-4, 7-10
  • Provérbios 8:22-31
  • Marcos 5:35-41
  • Mateus 6:26-30
  • João 9; 12:23-26
  • Romanos 8:18-25
  • Colossenses 1:15-20
  • Apocalipse 21:1-5; 6:16-21

25 John Mansford Prior, SVD, “Biblical Foundations for Justice and Peace and Integrity of Creation” (Fundamentos Bíblicos da Justiça, da Paz e da Integridade da Criação) in Verbum SVD 36:1, 1995, 25.

26 Ibidem, 20-21.

27 Depois da ressurreição todo este ímpeto de inclusão foi levado ainda mais longe: a pertença ao judaismo tornou-se uma simples opção, e outras nações foram aceites juntamente com as suas próprias tradições, culturas e línguas. Este movimento inclusivo de Jesus encontra-se resumido no credo baptismal citado por São Paulo na carta aos Gálatas 3:27-28: “Todos os, que fostes baptizados em Cristo, vos revestistes de Cristo. Não há judeu nem grego; não há servo nem livre, não há homem nem mulher, pois vós todos sois um só em Cristo”.

28 Bartolomeo Sorge, Address to the General Chapter of the Carmelite Order (Discurso perante o Capítulo Geral da Ordem Carmelita), Sassone, Set. De 1995, publicado em CITO, Out. De 1995, nº 5, p.89.

29 Ordem de São Domingos, Justice and Peace Workbooks (Manuais de Justiça e Paz), Cúria Geral, Roma, 1996, nº 4.

30 Extracto de um artigo de David Buer, OFM, Califórnia, EUA.

31 Ordem de São Domingos, Justice and Peace Workbooks, nº4

32 Extractos de Sr. Rani Maria, a Martyr for Human Dignity, a Tribute by M.P. Voluntary Health Association ( A Irmã Rani Maria, Mártir pela Dignidade Humana; Homenagem da Associação Voluntária de Saúde M. P.) ; Indore, Índia, 1995.

33 Donald Dorr, Spirituality and Justice (Espiritualidade e Justiça), Maryknoll, New York, Orbis Books, 1984. Esta secção foi inspirada pelo Capítulo 6 desta obra.

34 Voices from the Third World, Life Affirming Spirituality, Source od Justice and Righteousness (Vozes do Terceiro Mundo; A Espiritualidade Afirmativa da Vida como Fonte de Justiça e Rectidão), Ecumenical Association of Third World Theologians, Colombo, 1990, p. 78.

35 Richard Horsely, The Kingdom of God and the Renewal of Israel (O Reino de Deus e a Renovação de Israel), in The Bible and Liberation, Norman Gottwald and Richard A. Horsely. Horsely explica com clareza a dimensão social do Reino: segundo pensa, o sermão de Jesus sobre o Reino centra-se nas pessoas e as suas principais metáforas têm em mira a extensão social, não a espiritualidade individualista; Maryknoll, New York, Orbis Books, 1993), 408-426.

36 Ibidem, 33-35

37 David J. Bosch, Transforming Mission, (Transformar a Missão), Maryknoll, New York, Orbis Books, 1991, p. 41.

38 Na sua obra Transforming Mission, Bosch apresenta um significado mais amplo do termo “perdão”. Ele diz que é importante levar em consideração o conceito bíblico de “perdão”. Na Bíblia, a palavra “perdão” tem uma grande variedade de significados, que vai desde “resgate de escravos vinculados” até ao “cancelamento de dívidas monetárias”, “libertação escatológica” e “perdão de pecados”, p. 33.

39 Forum for Action (Fórum de Actuação), Número 16, Outubro-Dezembro de 1996.

40 J. Sobrino, Monseñor Romero (Dom Romero), San Salvador; UCA Editores, 1994, 18-19.

41 Throw Fire (Lancem o Fogo), Manila, Logos, 1997, cap. 6

42 Cfr. Ribes, p. 122

43 Retirado do artigo Theology of Life: A case study in India: God´s option for the poor” (Teologia da Vida: Estudo duma situação na Índia: a opção de Deus a favor dos pobres). Consulta em Assuntos Teológicos para Indian Church Today and Tomorrow (A Igreja Indiana Hoje e Amanhã), realizada em Vishranti Nikayam, Bangalore, 22-24 de Agosto de 1996, Echoes, 10/1996, pp.28 e ss.

44 cfr. Fuellenbach, cap. 4.

45 cfr. Boletim Dei Verbum (A Palavra de Deus), 40/41, p.32

46 “Radical Choices” (Opções Radicais), extraído de A Christian Response to Poverty (Uma Resposta Cristã à Pobreza), Austrália, 1996, 5

47 Duma conferência de Dom Nguyen Van Thuan feita num encontro dos Promotores de Justiça-Paz-Integridade da Criação, Assis, Abril de 1995.

48 Vincent Donovan, The Church in the Midst of Creation (A Igreja no Meio da Criação), Maryknoll, Orbis Books, New York, 1990, p.75-76.

49 Franciscan Vision for Justice, Peace, Integrity of Creation (Perspectiva Franciscana para a Justiça, a Paz e a Integridade da Criação), Secretariado da JPIC, Cúria da OFM, Roma, 1997.